Gustl Rosenkranz
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Brasileiros no exterior e os preconceitos entre nós

Ao contrário do que se imagina, nem todo mundo que sai do Brasil cresce com isso, abrindo a mente e o espírito, descartando seus preconceitos. Seria lógico concluir que alguém que sai de seu país e vai conhecer ou mesmo viver no exterior, amplie seus horizontes, perdendo essa visão limitada do mundo, das coisas e da vida, que é o que normalmente ocorre, mas, infelizmente, temos que constatar: alguns são resistentes a essa visão mais ampla e, mesmo vivendo no exterior, não conseguem se livrar desses preconceitos que trouxeram consigo na mala.

Preconceitos existem em todo lugar e todos os povos sofrem com esse problema, esse desvio de comportamento, que faz com que alguém se sinta superior a outras pessoas, por serem diferentes, por não caberem na visão limitada desse alguém sobre o mundo. Conhecemos preconceitos também no Brasil, contra pobres, negros, homossexuais e contra muitas outras minorias ou mesmo maiorias.

Sim, preconceito resulta de uma visão limitada. Seria lógico então concluir que alguém que sai de seu país e vai conhecer ou mesmo viver no exterior, amplia seus horizontes, perdendo essa visão limitada do mundo, das coisas e da vida, que é o que normalmente ocorre. Infelizmente, porém, temos que constatar: alguns são resistentes a essa visão mais ampla e, mesmo vivendo no exterior, não conseguem se livrar desses preconceitos que trouxeram consigo na mala.

Vejo muitos brasileiros reclamando, por exemplo, do preconceito dos alemães em relação a estrangeiros, o que é legítimo, pois realmente há também na Alemanha gente limitada que discrimina outras pessoas devido à sua origem. Mas é importante que não esqueçamos que tal tipo de gente existe também no Brasil e que alguns desses conterrâneos limitados estão até mesmo aqui entre nós, na Alemanha e também em outros países.

Escrevi um texto sobre pessoas interesseiras no Brasil, que insistem em acreditar que quem muda para o exterior fica automaticamente rico, esperando então que o “rico” lhe traga presentes e até lhe ajude financeiramente. Esse parece ser um assunto que toca muita gente, pois a repercussão do texto foi grande. Praticamente todas as pessoas que comentaram concordaram comigo, mas teve um sujeito que teve a ousadia de escrever que tal comportamento “só pode ser coisa de pobre, de baiano ou ambos” (veja a imagem abaixo). Já em um grupo de brasileiros no Facebook, uma mulher, em um delírio xenófobo, saiu criticando TODOS os árabes e russos, falando mal, insinuando que eles não têm bom caráter, dizendo que são todos iguais, cuspindo preconceito sem nenhum acanhamento. E mais assustador ainda são comentários de brasileiros que vivem voluntariamente (!) na Alemanha sobre os alemães, insultando-os, reclamando deles o tempo todo, esquecendo-se de que nós é que somos os visitantes por aqui e que ninguém é obrigado a ficar, chamando-os não raramente de nazistas, que é algo que mostra o quanto essas pessoas são extremamente ignorantes e insensíveis, já que o nazismo na Alemanha é algo delicado, um assunto que é tratado com muita seriedade, com o qual por aqui não se faz piada ou comentário de mau gosto. Além da postura de discriminação, essa gente ainda mostra que não sabe se comportar na casa dos outros. Comentários bestas ou insultos envolvendo Hitler e o nazismo são tabu na Alemanha! Esses são apenas alguns exemplos de muitos comportamentos preconceituosos de brasileiros por estas bandas, gente que se nega a crescer, que insiste na própria mediocridade e na sua visão estreita.

Comentário preconceituoso
Refleti se deveria postar esta imagem ou não, mas como se trata de um comentário feito publicamente…

E para quem pensa que os preconceitos de brasileiros se restringem a comentários imbecis na internet, gostaria de ilustrar com uma pequena história que isso infelizmente extrapola o mundo virtual. Conto-lhes algo que me ocorreu há não muito tempo atrás (e que ninguém me diga que foi um caso isolado, pois isso não seria verdade):

Encontrei-me com um grupo de amigos e conhecidos brasileiros para bater um papo descontraído e trocar ideias. Fui um dos últimos a chegar e, por mera coincidência naquele dia, era o único mulato e o único nordestino presente. Os demais eram pessoas do Sul e do Sudeste, com exceção de uma moça de Brasília. Bom, eu já conhecia praticamente todos, gente muito inteligente, simpática e divertida. Havia, porém, um homem recém-chegado do Sul do Brasil, que vi pela primeira vez e que vou chamar aqui pelo nome fictício de ‘Zé Peba’. Quando ele me foi apresentado, tive a impressão de ser olhado com certo desprezo por ele, que, mesmo sendo brasileiro, se apresentou com o sobrenome e fez questão de falar em alemão comigo, apesar de seu alemão ser péssimo. Como já sou macaco velho e já conheci muita gente ‘esquisita’ nesta vida, não dei muita importância à coisa, respondi em português e busquei rapidamente conversa com outras pessoas. Mais tarde, escutei como Zé Peba perguntou para alguém de onde eu vinha. Quando responderam que venho da Bahia, ouvi-o comentar que “baiano não jeito mesmo” e que “essa raça está em todo canto”. Confesso que não gostei nada, mas mantive a diplomacia, preferindo não dar bola ao sujeito, também para não estragar o clima descontraído dos outros.

Em certo momento, ele veio puxar conversa comigo, contando-me em alemão capenga e com a boca cheia de orgulho, dentes e vento que era descendente de alemães, que viera para cá para estudar na universidade e perguntando com um ar de superioridade estúpida o que eu fazia aqui. Como interiormente já tinha baixado o caboclo em mim e eu não tinha mais qualquer interesse em conversar sério com o Zé Peba, respondi ironicamente:

<<Eu vivo de catar garrafas e entregá-las no supermercado!>>

Afastei-me em seguida, vendo sua cara perplexa, de alguém que se sentia extremamente superior.

A conversa foi rolando, até que ele perguntou ao grupo se alguém conhecia um tradutor juramentado, pois ele necessitava urgente de algumas traduções. Alguém do grupo respondeu, apontando para mim:

<<Fale com ele, pois ele trabalha com isso!>>

Agora vocês imaginem que o mesmo sujeito veio até mim sorrindo, falando em português e perguntando se eu poderia ajudá-lo com as traduções. Mais uma vez mantive a diplomacia e respondi que não, que tinha muito trabalho e, portanto, não tinha condições de ajudá-lo, indo embora em seguida, já que tinha outro compromisso, e esperando que meu caminho nunca mais se cruzasse com o de Zé Peba, pois eu poderia terminar ‘rodando a baiana’ e confirmando que ‘baiano realmente não tem jeito’, dizendo-lhe então alguns “desaforos”.

Não gosto de generalização e sei que gente imbecil do tipo Zé Peba é uma minoria, mas esse tipo de gente existe, em todo canto, na Alemanha e também no Brasil. Deveríamos refletir sobre isso antes de achar que preconceito é coisa que só existe entre os alemães e outros povos. Acredito que gente assim sejam pessoas de autoestima baixa, pois somente uma baixa crença em si mesmo explica a necessidade de se sentir superior a outros seres humanos, e isso com argumentos fracos, discriminatórios, que só atestam uma coisa: uma grande pobreza de espírito.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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