Sociedade

Um jumento, ativistas histéricos e Jesus de patinete

Uma tradição secular na Baviera, no sul da Alemanha: o festival “Oberammergauer Passionsspiele“, uma encenação da Paixão de Cristo, que é realizada a cada 10 anos, desde 1634. A próxima apresentação será em maio de 2020.

Uma das cenas do espetáculo é a chegada de Jesus em Jerusalém montado em um jumento, de acordo com a narração bíblica.

Foi exatamente por causa dessa cena que dessa vez os organizadores se viram confrontados com críticas e ataques de ativistas extremamente engajados da PETA, uma associação protetora de animais. Os ativistas foram para a justiça para proibir o jumento nessa cena e sugeriram que Jesus chegasse de patinete elétrica, e isso em nome do jumento, que, na opinião deles, precisava de proteção e dessa intervenção.

A justiça rejeitou a ação e o jumento pode continuar em seu papel de jumento e carregar Jesus.

É por causa de histórias como essa que não gosto muito de ativistas (nem de militantes, missionários e outros radicais). Mas não quero ser mal entendido: acho que precisamos dos ativistas, dessa gente que assume a causa, carrega a bandeira e arregaça as mangas. Eles são importantíssimos em processos/fases de mudanças e são o martelo em nossa consciência, já que martelam literalmente sempre na mesma coisa.

Nossa sociedade anda muito preocupada com o próprio umbigo e é bom que haja gente que denuncie, que alerte, que chame nossa atenção para tantas outras coisas que acontecem, mas que podem passar despercebidas se alguém não nos der uma beliscada.

O problema que vejo no ativismo é que ele requer um foco numa determinada coisa, numa causa, num problema. Isso aumenta o risco de “cegueira ideológica”, já que essa focalização pontual pode fazer com que o ativista perca a visão do todo, ignorando outros fatores e pontos de vista, que seriam necessários para um melhor entendimento do contexto.

Um ativista com “cegueira ideológica” somente enxerga o objeto de sua luta, ofuscando todos os demais aspectos e o resultado disso são desvios como esse acima, de querer proibir “Jesus” de ser carregado por um jumento por alguns minutos.

O mundo está se aquecendo, milhões de pessoas estão migrando, tem gente morrendo afogada no Mar Mediterrâneo por tentar entrar na Europa, os EUA e a China em guerra comercial, os EUA e o Irã ensaiando guerra de verdade, os EUA e a Rússia governados por adolescentes mais preocupados em comparar o tamanho dos pintos, o mar cheio de plástico, as florestas pegando fogo, as geleiras derretendo, mais e mais animais em extinção, a desunião entre os humanos aumentando, tendências antidemocráticas crescendo e aí me vem ativista reclamar de um jumento (por sinal, gordinho, saudável e bem tratado) por ele ter que carregar “Jesus”, uma pessoa de estatura e peso medianos, por uma distância de 30 metros, e isso uma vez a cada 10 anos?

Esse tipo de coisa só serve para prejudicar a imagem dos próprios ativistas. Exageros assim passam a ideia de histeria e termina é fortalecendo políticos populistas, que gostam de negar a realidade e de usar exemplos como esses para descreditar seus críticos.

Muitos ativistas não percebem o quanto são radicais e que esse radicalismo (seja de natureza ideológica ou religiosa) é sempre contraprodutivo, só prestando para dividir as pessoas e fortalecer conflitos.

Uma pessoa radical é capaz de se prender a uma única palavra que alguém disse ou escreveu para criar o maior reboliço. Ele pega uma palavra, a arranca do contexto e tenta problematizá-la, numa discussão sem nexo.

Eu mesmo já fui rotulado de racista porque costumo chamar meu cachorro de “negão”, que, para mim, juntamente com nego, neguinho, nega, negona e neguinha sempre foi uma palavra que expressa carinho e não racismo. Mas sei que cada cabeça é um mundo e até poderia tentar entender o motivo da pessoa não ter gostado de eu ter chamado meu cachorro assim, mas, para isso, ela precisaria ter me explicado seu ponto de vista com calma e não ter logo partido para insulta e julgamento precipitado, sem demonstrar qualquer interesse em um entendimento.

É difícil lidar com gente assim. Ativistas acreditam muitas vezes que comeram sozinhos o “bolo da verdade” e que, portanto, somente eles têm razão. Raramente se vê autocrítica. Se fossem autocríticos, perceberiam que querer proibir que um jumento carregue “Jesus” numa cena de teatro, por 30 metros, e sugerir que o “filho de Deus” chegue de patinete elétrica é coisa que carece de qualquer sentido.

Conforta-me saber que Jesus não teria problema algum se chegasse hoje em Berlim. Jumento é coisa rara por aqui (então não teria protestos!) e patinete elétrica é o que mais tem nas ruas. Basta ele ter o app certo 😉

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