Gustl Rosenkranz
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Nós brasileiros deveríamos olhar para a Hungria

Porque nós brasileiros deveríamos olhar para a Hungria
Viktor Órban - Imagem: European Parliament

A Hungria já atravessa um momento político semelhante ao que o Brasil está iniciando e nos passa uma ideia do nos espera pela frente.

Nós, brasileiros, deveríamos parar e olhar mais demoradamente para a Hungria, esse minúsculo país europeu de história milenar, completamente diferente do Brasil, mas que passa por uma situação política muito semelhante à que vivemos no momento.

Só que a Hungria se encontra um pouco mais avançada. Enquanto o Brasil ainda cambaleia e se recupera do susto de ter agora um populista de extrema-direita no poder, um governo húngaro muito semelhante ao nosso já começa a perder o reboco e a mostrar abertamente o que se encontra por trás da fachada.

Também Viktor Orbán, Primeiro-ministro da Hungria, chegou ao poder através de um discurso nacionalista, polêmico, polarizante, racista e islamofóbico. Homofobia, ataques à oposição, a minorias e à imprensa e uma visão arcaica do papel da mulher na sociedade também faziam e ainda fazem parte de seu repertório. Ele também apela a valores cristãos (ou aquilo que definiu como tal), numa semelhança assustadora com o discurso de Donald Trump e de Jair Bolsonaro.

Um de seus alvos favoritos é a União Europeia, que ele coloca como uma ameaça à identidade nacional húngara e que, para ele e seus adeptos, é simplesmente tudo de ruim, mesmo sendo a Hungria um dos países mais beneficiados pela solidariedade europeia, no passado e ainda hoje.

Para assustar a população e, assim, dominá-la pelo medo, Viktor Órban instrumentalizou o movimento migratório de 2015 e contou repetidamente a lenda de que a Europa estaria sendo invadida por muçulmanos, reforçando essa assombração na cabeça das pessoas através de informações falsas, fatos torcidos e cenários sombrios, num ato de manipulação bastante facilitado pelas redes sociais.

Enquanto berrava contra refugiados e xingava Angela Merkel (que é para ele como Lula para Bolsonaro) para seus fãs aplaudirem, Viktor Órban tomou diversas medidas para restringir a liberdade de imprensa e a independência da justiça, desviou muito dinheiro (inclusive verbas da União Europeia) para beneficiar sua turminha, superfaturou obras, enriqueceu, seus amigos também enriqueceram, e ele, que prometeu „salvar a pátria” e fazer tudo melhor que os outros, está é fazendo muito pior e causando danos sérios à Hungria, que vai precisar de muito tempo para se recuperar desse „acidente político”.

Os conflitos com a União Europeia ilustram bem que não há nenhuma consistência por trás de todo o discurso nacionalista que frisa querer o bem da Hungria, que é tudo papo vazio, pois é um ato camicase governar um país pequeno que depende de uma comunidade, que usufrui da solidariedade dessa comunidade, e instrumentalizar essa mesma comunidade para politicagem populista, colocando a população do país contra o projeto União Europeia, somente para desviar a atenção dos próprios negócios e tramoias, da corrupção que corre solta e da política de compadres que pratica.

Enquanto no Brasil a base religiosa de Bolsonaro são os evangélicos, Órban recebe apoio de católicos conservadores. Entretanto, a linha pseudoteológica é muito parecida: combate fanático e frenético ao aborto, rejeição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, repressão sexual e todo o roteiro que bem conhecemos.

Porque nós brasileiros deveríamos olhar para a Hungria
Também na Hungria ocorre a manipulação por desinformação.

São muitos os paralelos e a Hungria de hoje, por estar mais adiante que o Brasil nesse processo, pode nos passar uma ideia do que nos espera e nos mostrar que pode demorar um pouco, mas a ilusão do povo passa. Ela já está passando na Hungria.

A insatisfação está aumentando. Principalmente depois do governo mudar leis trabalhistas de forma muito generosa para os patrões, mas com muitas desvantagens para os empregados, a farsa começou a ser desmascarada, a popularidade do Primeiro-ministro caiu, o povo começou a perceber que foi enrolado e, hoje, muita gente que apoiou Viktor Órban no passado está indo para as ruas para protestar contra ele.

Sei que o momento é difícil, sei que há grande risco para a democracia e para a paz social no Brasil. E confesso que também ando com dificuldade de entender pessoas e situações. Mas insisto em acreditar que, como na Hungria, também no Brasil o reboco cairá aos poucos. Na verdade, já começou caindo.

O povo anda desorientado e se apegando a espantalhos, acreditando que são líderes de verdade, e temos que ter cuidado, claro, para que a coisa não entorte muito, mas essa fase vai passar e o povo vai buscar uma nova orientação. Mais cedo ou mais tarde (o mais tardar quando doer muito no bolso do cidadão), o povo despertará e perceberá que, mais uma vez, só está sendo vítima de transações tenebrosas de gente estranha.

Que a Hungria nos sirva de exemplo, principalmente para aqueles que ainda estão presos na ilusão de que alguém que chegou ao poder contando mentiras irá governar de verdade.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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