Blog de Gustl Rosenkranz

Palavras caladas quando precisariam ser ditas são palavras vazias

Palavras caladas quando precisariam ser ditas são palavras vazias

Sobre o valor das palavras ditas (ou escritas) por certas pessoas em “tempos de paz”, mas que se calam e se omitem quando a situação se agrava e chega o momento de se posicionar claramente.

Há uma coisa que tenho observado e que nada tem me agradado: pessoas que se calam diante de absurdos que acontecem à sua volta.

É um fenômeno comum, já que assim é o ser humano: ele se cala para não ter estresse com os outros, pois, quem abre a boca se posiciona e quem se posiciona termina tendo conflitos. O ser humano gosta de sua zona de conforto.

Em certos casos, é mesmo melhor calar-se, puxar a carroça e seguir caminho, mas tem situações em que se calar é consentir algo grave e inaceitável.

E muita gente se cala exatamente nesses momentos e é principalmente estranho quando quem se cala é alguém que tem certa influência, que tem um público que o segue, que vive falando (ou escrevendo) palavras bonitas, falando (ou escrevendo) de amor próprio e ao próximo, de responsabilidade e solidariedade, de justiça e verdade, de coragem e maturidade e assim por diante.

Todos nós somos livres para calar ou falar quando quisermos. Não estou questionando esse direito. O que questiono é o valor das palavras ditas (ou escritas) por essas pessoas em “tempos de paz”, se elas se calam e se omitem quando a situação se agrava e chega o momento de se posicionar claramente.

Vejo gente que escrevia textos como um recordista mundial, era texto todos os dias, abordando isso e aquilo, apelando ao bom senso e usando palavras fortes que soam bonitas, mas que agora se cala diante de tudo que se passa, com o mundo se aquecendo e se destrambelhando em excessos e incertezas, com uma insegurança crescente em relação ao futuro, com políticos populistas e demagogos se aproveitando dessa insegurança para fomentar medo e ódio e com muitas pessoas por aí expondo abertamente o que há de mais negativo em si, insultando, difamando e torcendo fatos, não raramente em nome de Deus, fazendo com que se percam valores essenciais para uma convivência saudável entre seres humanos.

Quem se cala nesse momento anula tudo de bonito que havia dito antes. Quem se cala nesse momento, esvazia as próprias palavras, numa atitude incoerente guiada por comodismo ou por egoísmo e covardia, se bem que acredito que, em alguns casos, o motivo é indiferença mesmo.

Não que eu não entenda. Sei que quem, por exemplo, mantém um site/blog ou qualquer outro canal de comunicação precisa de público e quer evitar polêmicas para que o número de visitantes não caia, o que seria problemático principalmente para quem vive de suas publicações. Sim, entendo bem isso, mas onde está o limite?

Que credibilidade tem então alguém que publica um texto lindo sobre os direitos humanos ou sobre o amor se ele se cala quando uma pessoa comenta seu texto de uma forma perversa e desrespeitosa, defendendo ideias arcaicas como tortura e pena de morte, ou dizendo que inimigo político deve ser metralhado, que violência se resolve com bala, que homens e mulheres não têm o mesmo valor e que homossexuais precisam ser curados, entre outras aberrações ainda pior? Para mim, nenhuma.

Não acho que devamos todos entrar em bate-bocas políticos, e nem acho que isso seja necessário. Existem muitas formas de se manifestar, de deixar claro que nada que fira a dignidade humana será aceito, que não concorda com a monstruosidade que se espalha atualmente por aí. Pessoas inteligentes que escrevem textos inteligentes são sim capazes de resistir a essa onda que nos afeta sem precisar ficar brigando com ninguém. Se elas não o fazem, é porque não querem ou não têm coragem, o que no fim dá no mesmo e não ajuda ninguém.

Observo um conhecido na internet. Ele está indignado por tudo isso que anda acontecendo e vive discutindo, dialogando e até brigando, pois ele sente o peso e o perigo do momento atual e quer fazer sua parte, assumindo sua parcela de responsabilidade pela vida e pelo que ocorre. Esse rapaz anda estressado, se alterando por cada notícia ruim que lê e achando que deve reagir. Não acho bom o que ele está fazendo, pois ele exagera, se envolve muito e isso o desgasta. Penso que há formas mais suaves e inteligentes de “resistência”, sem precisar se expor tanto, mas, sinceramente, mesmo não achando boa a intensidade de suas reações, esse rapaz me é mais simpático do que aqueles que nada dizem e preferem se esconder egoisticamente atrás de qualquer desculpa para se calarem num momento tão crítico.

Gustl Rosenkranz

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