Categorias
Comportamento Sociedade

Os “guerilheiros urbanos” e nossa mania de só fazer de conta

Sobre a mania que o ser humano tem de apostar mais em aparência do que em consistência e de não fazer as coisas realmente, mas só fazer de conta que faz.

Chamo de “guerrilheiros urbanos” esse pessoal de cidade grande que “se arma” todo para praticar qualquer coisa, vestindo-se de forma extravagante e levando consigo todo o equipamento possível para poder se sentir bem preparado e alimentar a ilusão de que vive verdadeiras aventuras selvagens no meio da cidade.

Pensei nisso hoje cedo ao ver um ciclista subindo a Bernauer Straße, uma rua aqui perto que tem uma inclinação leve, nada difícil de vencer para qualquer ciclista, mesmo com bicicleta velha, mesmo com a bicicleta mais barata do mercado.

Pois bem, lá veio o “ciclista guerrilheiro” com sua bicicleta ultramoderna, não sei quantas marchas, cheia de amortecedores e apetrechos, computador (velocímetro), bolsas laterais, várias garrafinhas de água presas no quadro e tudo que se tem direito. Mas isso não foi tudo: o homem estava vestido como um ciclista profissional, capacete, roupinha justa, short de ciclista (desses que agarram no corpo e parecem ter um absorvente enorme na parte de baixo).

Sim, o “ciclista guerrilheiro” parecia pronto e completamente “armado” para enfrentar a próxima Tour de France. Só que aí ele chegou no início da ladeira, deu ainda umas pedaladas, mas cansou rápido, desceu da bicicleta e continuou a empurrando ladeira a cima.

Confesso que não entendi nada. Tanta presepada para, no fim, nem conseguir pedalar numa ladeirinha besta?

Mas não observo isso somente em ciclistas. É a mesma coisa com muita gente que corre no parque, com roupa de maratonista, tênis caros, bolsinha para celular, medidor de pulso, etc., para depois só dar uma voltinha correndo e caminhar o resto do percurso por falta de fôlego. Ou então os fãs do futebol, que andam vestidos como Cristiano Ronaldo, Neymar ou Messi, mas não conseguem correr 10 metros atrás de uma bola. O pior é que eles ainda se fotografam e postam seus selfies em redes sociais para serem admirados por outros. E são admirados. Ou as pessoas também só fazem de conta que admiram, o que seria bem provável.

Ruim é que acho que esse fenômeno é só um reflexo de um problema muito maior: a mania que o ser humano tem de apostar mais em aparência do que em consistência e de não fazer as coisas realmente, mas só fazer de conta que faz.

Não é assim na política, onde o político só faz de conta que está trabalhando para o povo e o eleitor faz de conta que está votando de forma consciente? Não é assim com a polícia que só faz de conta que serve à população? Não é assim com nossas amizades, com muita gente só fazendo de conta que é amiga? Não é assim com a alimentação, com gente deixando de comer carne por não ser saudável, mas se entupindo de soja com pesticida e fazendo de conta que isso é bom? Não é assim quando nos revoltamos e nos indignamos com um atendado na França, demonstrando solidariedade e afirmando que o terrorismo é inaceitável, mas nem ligamos para um atentado ainda maior na Nigéria ou em Bangladesh?

Sim, a humanidade faz muito de conta e pouco de verdade e aposta mais em show que em realidade. E acho que é aí que mora a causa de muitos de nossos problemas.

E, sinceramente, prefiro um ciclista de bermuda desbotada e rasgada numa bicicleta velha e enferrujada, mas que sobe qualquer ladeira, a esses “guerrilheiros urbanos” que só fazem de conta que são ciclistas. Acho que, em geral, menos show e mais coerência nos faria bem.

https://www.facebook.com/bloggustlrosenkranz/photos/a.198444720626780/666267953844452/?type=3
Caso deseje utilizar algum conteúdo deste blog, leia, por favor, estas informações.

Por Gustl Rosenkranz

Sou apaixonado por palavras e viciado em escrever. Escrevo sobre o que vejo, escuto e vivencio diariamente, sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano e seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem luvas, sempre tentando tocar no assunto, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *