15 49.0138 8.38624 arrow 0 bullet 0 4000 1 0 horizontal https://gustl-rosenkranz.de 300 4000 1
Blog de Gustl Rosenkranz
O jeitinho brasileiro: uma virtude?

O jeitinho brasileiro: uma virtude?

27 de junho de 2014
537 Visualizações
O jeitinho brasileiro tem, sem dúvidas, seu lado positivo, mas os males causados por essa mentalidade de “dar um jeitinho nas coisas” em toda e qualquer situação são maiores que os benefícios. O jeitinho tem consequências sérias para a sociedade, despertando a desonestidade, deturpando a mentalidade do povo brasileiro.

Li em um blog uma matéria com o título “Estrangeiros listam dez exemplos que o Brasil poderia exportar – Hábitos tipicamente brasileiros poderiam ser exemplo no Exterior”. Li por esperar algo interessante, mas me vi foi deparado com um texto superficial e bairrista. Cita-se, por exemplo, alguns estrangeiros que gostam das festas no Brasil por não terem hora de acabar. Bom, é lógico que alguém que vai de férias para o Brasil, por causa da copa, para curtir, queira mesmo é badalar a noite toda, sem limites. Mas será que esses mesmos estrangeiros iriam gostar disso se vivessem no Brasil, se chegassem em casa cansados depois de um longo dia de trabalho, talvez com dor de cabeça, e tendo que levantar cedo no dia seguinte, e fossem então obrigados a escutar a “patuscada” até o dia amanhecer? Será que eles pensariam do mesmo jeito se chamassem a polícia para acabar com a “baderna”, exigindo o cumprimento da “lei do silêncio” que também existe no Brasil, mas a polícia não viesse, alegando falta de viatura, ou mesmo viesse, mas recebesse propina do dono da festa e fosse embora sem fazer nada? Não, acredito que não. E refletindo com uma maior profundidade, veremos que também os outros hábitos listados não são nenhum produto adequado para exportação, pois não funcionariam em outros lugares, já que seria necessário exportar também a mentalidade brasileira, com todos seus prós e contras. E duvido que alguém realmente queira esses contras!

De todos os hábitos “tipo exportação” sugeridos na matéria, o que mais me irritou foi o jeitinho brasileiro, que é colocado como mera virtude. Mas será mesmo uma virtude? Certamente há seu lado vantajoso, o lado da criatividade e da improvisação, mas acredite: criatividade e improvisação não são coisas exclusivas do povo brasileiro. Isso também existe ou existiu em outros países, com a diferença de ser ou ter sido uma improvisação como deveria ser: passageira! Os pioneiros que colonizaram a América do Norte ou a Austrália, por exemplo, também tiveram que improvisar muito no início e mesmo os alemães foram extremamente criativos após a segunda guerra. Sim, mesmo os alemães souberam ter jogo de cintura, criatividade e senso de improvisação para reconstruir um país que fora totalmente destruído. Eles desfiavam, por exemplo, sacos de juta, teciam os fios obtidos e faziam roupas. Da mesma forma na Alemanha Oriental, durante o comunismo, onde faltava de quase tudo e as pessoas também precisavam improvisar para (sobre)viver. Com o passar do tempo e com a desnecessidade de “dar algum jeitinho”, as improvisações foram desaparecendo, dando lugar a sistemas que realmente funcionam, leis que são realmente aplicadas e um profissionalismo e uma seriedade que não admitem mais “gambiarras”.

E o Brasil? Continua improvisando desde sua colonização! A coisa ficou tão “encravada” na cultura brasileira que se improvisa até mesmo onde não é necessário (vi uma vez, por exemplo, um pedreiro empilhando caixotes para subir e fazer um concerto no reboco na parte alta da parede. Ele ficou sem jeito quando perguntei por que ele não usava a escada que estava praticamente ao seu lado!). É evidente que essa improvisação tem seu lado positivo, que torna certas pessoas mais flexíveis e pode ser muito útil, principalmente para aqueles que realmente vivem em uma situação precária e precisam (!) improvisar. Gostei de ler no livro CHOQUE CULTURAL BRASIL X ALEMANHA, de Daniela Schülke, uma cena observada por sua sogra no metrô de São Paulo:

[…] alguns homens vendiam bijuterias na porta do metrô e de repente, quando começava a chover, lá estavam eles, os mesmos ambulantes, que voltavam vendendo guarda-chuvas!

Sensacional! Isso é o que chamo de flexibilidade! Mas acho que os males causados por essa mentalidade de “dar um jeitinho nas coisas” em toda e qualquer situação são maiores que os benefícios, já que esse “dar um jeitinho” pode significar também burlar regras e leis, pagar (ou receber!) propinas, ser beneficiado por parentes e amigos (ou beneficiá-los) sem ter tal direito, enrolar no trabalho, não cumprindo devidamente a tarefa para a qual está sendo pago, fazer gambiarras mesmo quando a segurança de pessoas é colocada em risco, como nas áreas elétrica e de mecânica deautomóveis, etc., etc., etc. O jeitinho alimenta uma mentalidade de pilantragem, de tirar vantagem, de passar a perna nos outros, transformando os honestos/corretos em bestas e os pilantras em espertos. Não, mesmo tendo um lado indiscutivelmente bom, o “jeitinho brasileiro” não é uma virtude, mas sim algo que prejudica e freia a sociedade brasileira, que fomenta um clima de desrespeito e corrupção… É um comportamento, um hábito que visa saciar as próprias necessidades, com uma falta de respeito às pessoas, já que só se visa o lucro próprio, passando por cima de direitos de terceiros. Ou alguém acha legal ficar em pé em uma fila que só anda lentamente e ver alguém chegar bem mais tarde, fresquinho e descansado, e ser logo atendido por conhecer algum funcionário disposto a dar um jeitinho para ele? E não deveríamos refletir sobre quão criminosa é a atitude de um policial que deixa que um bêbado prossiga dirigindo só porque colocou alguns reais em seu bolso? Ou não será profundo desrespeito pela vida alheia quando se “conserta” alguma coisa quebrada em um carro com arame e fita adesiva, ao invés de levar o veículo para uma oficina?

O jeitinho tem consequências sérias para a sociedade, despertando a desonestidade, deturpando a mentalidade do povo brasileiro, fazendo com que o Brasil tenha caído em 2013 no Ranque Mundial de Percepção da Corrupção da organização Transparency International e com que os brasileiros convivam diariamente com toda uma maquinaria corrupta em órgãos administrativos, sem perceberem como essa prática corrói nosso país como um câncer em estado avançado. Para uma melhor visualização dessas consequências, recomendo assistir este vídeo:

Bom, para terminar, gostaria de esclarecer algo, já que sei que o risco é grande de eu ser xingado e acusado de não amar o Brasil e ser chamado de “vira-lata”, como são intitulados atualmente aqueles que têm a coragem de apontar os problemas que acometem nosso país: eu amo o Brasil, ou melhor, eu o amo muito! De forma alguma estou aqui sentado escrevendo para simplesmente “falar mal” de minha terra natal. Só acho importante não taparmos o sol com peneira, não sermos bairristas bitolados que só querem ver o lado positivo, negando a realidade, achando que o Brasil é um paraíso e que não há lugar melhor lugar no mundo para se viver. Escrevo isso porque conheço outras realidades e mentalidades e lugares onde se vive melhor que no Brasil, sem medo de sair na rua, onde não se teme a polícia, onde os direitos dos cidadãos são respeitados, onde há um melhor nível de convivência e respeito mútuo. Meu sonho é o de ver o Brasil um dia em outra situação, sem tanta corrupção e sem tantos desvios no contato entre as pessoas, com maior maturidade social e oferecendo a todos um ambiente melhor, de mais igualdade, maior seriedade e mais respeito pelos direitos de cada um e da sociedade como um todo. O jeitinho brasileiro não é somente ruim e tem seu lado positivo, que deveria ser mantido. Que mantenhamos então a criatividade e o dom de improvisação, mas sem a pilantragem, o egoísmo e a falta de respeito mútuo.

Blogueiro, estreado na Bahia, residente em Berlim, brasileiro de nascença, alemão por opção, adepto da empatia e da gentileza, fã de boa argumentação, apaixonado por palavras, observador, escreve sob a vida e tudo que a toca.
Comentários 0

    Escreva uma resposta