Gustl Rosenkranz
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Humildade relativa do ar…

Uma reflexão sobre a contradição entre riqueza material, soberba e humildade

Uma reflexão sobre a contradição entre riqueza material, soberba e humildade

Espera-se do sábio uma atitude modesta, sóbria e humilde. (Aristóteles)

Falamos muito de humildade e creio que muitos de nós tentam praticá-la verdadeiramente, mas basta querer ser humilde para que isso seja possível? Será que isso depende somente de nós? Ou será que a opção pela humildade implica também em evitar um ambiente onde rege a riqueza e a fartura e que denota talvez a soberba, principalmente quando se vive em uma realidade com grande injustiça social?

Pois bem, durante minha estadia no Sul do Brasil, passei um tempo em Florianópolis. Fiquei em casa de um amigo num bairro de classe média alta e tive contato sobretudo com pessoas que fazem parte de uma parcela mais abastada da sociedade catarinense. Que não me entendam errado: são pessoas boas, honestas, engajadas, críticas e nada vejo de errado neles poderem levar uma vida materialmente boa. Nada vejo demais em pessoas poderem levar uma vida com certo conforto e sob condições dignas. Não, não há nada de errado nisso – errado é alguns terem acesso a certas coisas e outros não! É estranho para mim registrar que muitas coisas boas e importantes para uma vida decente não são acessíveis para a maior parte da população. É claro que é bom poder sair com amigos, almoçar na praia em um restaurante com vista para o mar, mas me incomoda perceber que poucos são os que podem pagar depois uma conta que corresponde à metade de um salário mínimo (mesmo que isso tenha sido dividido entre várias pessoas!), me incomoda saber que o garçom que nos atendeu talvez jamais poderá ir comer ali com sua família, me incomoda retornar para casa de carro, sem precisar passar pelo sufoco de ter que pegar um ônibus, como deve ser o caso das pessoas que ali trabalham e nos serviram e como deve ser o caso da média da população brasileira.

Repito que não critico o fato de alguns terem acesso a essas coisas. Tanto eu como meus amigos trabalhamos muito e construímos toda uma estrutura que nos permite levar uma vida com dignidade e sem maiores carências materiais. É bom necessitar de algo e ir a um supermercado ou shopping e comprar, é bom poder viajar e poder conhecer lugares novos, é bom poder fazer ioga, shiatsu, pilates, massagens, comprar livros, aparelhos eletrônicos, ir ao cinema ou ao teatro e curtir todas essas coisas que a vida tem para oferecer. Nada disso é um erro. Mas como conciliar tudo isso com o contraste tão óbvio, como viver então sem se sensibilizar com a injustiça que acompanha tudo isso e, para mim a principal pergunta, como não se corromper?

Por mais humanos que sejamos, por maior que seja nossa empatia com os menos abastados da sociedade, por mais que sejamos autocríticos e por mais que reflitamos, será que podemos viver realmente em humildade quando chegamos em casa em um bairro “bom”, em um apartamento de padrão alto e em um andar mais alto ainda e olhamos então para baixo e vemos aquelas pessoas correndo atrás de alguns trocados, vivendo em casas indignas onde não gostaríamos de viver, dependendo de um transporte coletivo que, mesmo em uma cidade como Florianópolis, deixa a desejar, que estão tão preocupadas com o mínimo para (sobre)viver que jamais ou só dificilmente terão a chance de se preocupar com coisas mais profundas, como a saúde da alma e mesmo da mente? Será que podemos viver em humildade quando nosso meio, querendo ou não, nos obriga a nos destacar dos demais através de, por exemplo, roupas melhores, já que nos sentiríamos deslocados ao andarmos no meio de “ricos” com roupas “de pobre”?

Repare que indago, mas, confesso, não tenho respostas. Não sei bem como conciliar tudo isso. Não creio que a solução seria abrir mão de tudo e viver de forma indigna como muitos vivem só para não correr o risco de viver em um ambiente de soberba. E também não creio que a solução seria doar o que temos para vivermos como os pobres, já que isso só aumentaria a pobreza e já que pobreza é sempre um desvio quando se vive em um mundo tão rico, onde há de tudo o suficiente para todos. Mas qual seria a solução então? Não sei. Nem sei se ela existe.

Só registro para mim que esse risco é real, o risco de sermos corrompidos pelo meio e vivermos uma humildade, quando muito, somente imaginária.

Registro que viver em um ambiente materialmente mais rico nos diferencia automaticamente da massa. E registro que essa diferenciação, diante do quadro de enorme injustiça social em que se vive no Brasil, poderia fazer com que nos sintamos diferentes, privilegiados, melhores, até superiores, já que temos mais chances, já que temos um maior poder.

No fundo questiono tudo isso para mim mesmo e penso aqui em voz alta. Vivi por um tempo em um ambiente segregado, em uma realidade de diferentes oportunidades, em um clima de grande desigualdade e senti na pele a distância desejada por alguns, donos de casas e apartamentos de luxo, de carros grandes e muito dinheiro na conta e no bolso, que se isolam, que se enaltecem, que se dirigem aos que menos possuem com uma pose de superior. Vivi isso, por exemplo, ao ficar parado na frente de um prédio e ser olhado por certos moradores com um ar que interpretei como hostil, mesmo sabendo que essa foi minha interpretação e que poderia estar errado. Mas senti isso, talvez por estar ali sem ser dali, sem roupas chiques e sem ostentação, talvez pela neurose das pessoas diante do clima de violência e da tensão social que regem o país (que são, por sua vez, o resultado da injustiça acima descrita!), que fazem com que elas tenham medo de quem é de fora ou é diferente. Não sei. Mas senti essa segregação, essa repulsa e me questionei: seria arrogância, seria prepotência, o que se passa com essas pessoas? Num primeiro impulso, confesso que as julguei, percebi minha tendência em ver maldade em seu comportamento. Mas prossegui na reflexão e me questionei se seria lógico esperar uma maior humildade e uma maior empatia dessas pessoas diante da realidade, do ambiente em que elas vivem. E assim surgiu esse texto: da necessidade de refletir sobre isso, de tentar entender o que se passava, por perceber que mesmo as pessoas com maior poder aquisitivo podem estar presas ao meio e a tudo que as cerca, que elas também podem ser vítimas da vida que levam, que pode estar evitando que elas se libertem do materialismo e da soberba e se desprendam de uma consciência errada, que as impedem de ser realmente humildes.

Não estou querendo desculpar o comportamento de ninguém. Todos nós, mas todos nós mesmo, temos nosso papel na sociedade e a obrigação de buscar um mundo mais justo. Não estou desculpando a falta de humildade de ninguém, seja ele rico ou pobre. Só questiono a trama por trás do comportamento, já que eu mesmo me vi envolvido nela.

Assim fica essa questão, que ainda não sei responder:  será que levar uma vida em humildade depende somente de nós? Ou será que a opção pela humildade implica também em evitar um ambiente onde rege a riqueza e a fartura e que denota talvez a soberba? Será que é possível viver bem e ser humilde, mesmo diante de uma dura realidade, onde muitos vivem mal? O que você acha?

NOTA DO AUTOR

É triste ter que ficar se explicando (sem real necessidade), mas como não gosto de mal-entendidos e tem gente entendendo (querendo entender?) errado:

Não, este texto não é nenhuma crítica ao povo catarinense. Cito o lugar porque foi lá que estive, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar do Brasil e acredito que não seria diferente. Eu poderia ter escrito “na capital de um estado brasileiro”… Será que tem gente que se prende a detalhes para escapar da profundidade da coisa? Não sei. Mas acho isso cansativo.

O mundo precisa mesmo de mais amor e uma melhor interpretação de textos. Está difícil… Discutir um texto deveria significar discutir o que está escrito – e não o que alguém decide que quer ler!


Foto: teologiaegraca.blogspot.com.br

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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1 comentário

  • Seu texto é sobre a soberba. Eu penso a soberba de forma mais ampla: soberba de ser inteligente, de ser alto, de ter olhos claros, de ter posses etc. A soberba quanto ao status social é apenas uma face da soberba, este mal que todo ser humano possui. Sêneca j á falava sobre a soberba!