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As férias da babá

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As férias da babá

Um encontro acidental que tive na Bahia com uma família de classe média, que levara a babá para “passar férias” no litoral baiano, “férias” que na verdade eram trabalho, mais exatamente um plantão de 24 horas por dia e 7 dias por semana. Foi triste perceber que ainda existe gente no Brasil que continua a tratar empregados (principalmente os domésticos) como pessoas de segunda categoria.

Vejo cinismo em certa gente que tenta se isentar de sua responsabilidade social. Vejo ricos, novos ricos e gente de classe média continuando a praticar um regime de quase escravidão, tratando empregados (principalmente os domésticos) como se fossem pessoas de segunda categoria, sem direitos, sem dignidade.

Sim, me incomoda esse cinismo, que vivi mais uma vez bem de perto em uma das minhas estadias em Salvador. Fiquei hospedado num hotel em Itapuã. Como não era verão e o carnaval estava muito longe, encontravam-se entre os hóspedes poucos estrangeiros, prevalecendo o turista brasileiro, de classe média alta. Lá também estava uma família do Sudeste do país: pai, mãe, avó e quatro crianças mal-educadas, que corriam e gritavam todos os dias às sete da manhã nos corredores do hotel, acordando a todos, ao ponto de eu um dia me levantar mal-humorado, refletindo sobre canibalismo e desejando que Herodes passasse por ali.

É claro que essa família havia trazido uma babá, que durante todo o tempo tinha que ficar correndo atrás das crianças, cuidando, tentando educar, desesperando-se.

Observei por dias seguidos tal família e fiquei horrorizado com a forma como lidavam com a criada, a serviçal, a semiescrava. Os pais (e também a avó) queriam descansar, o que é compreensivo, pois para isso foram à Bahia. Portanto, as crianças eram encaminhadas para a babá, sempre que queriam algo. Eles nem mesmo respeitavam o direito da babá de ter alguns minutos para comer em paz.

Como os encontrava diariamente no café da manhã, vi que a coitada nunca podia tomar o seu desjejum sossegada, sendo constantemente interrompida pelos pais, pelas crianças ou pela vovó preguiçosa, que era incapaz de ir pessoalmente ao quarto buscar algo que ela mesma por negligência havia esquecido. A babá tinha que largar o café na mesa e correr para atender os desejos do senhorio. À noite, o casal saía, a vovó ficava de bate-papo furado na recepção e a empregada, que dormia no mesmo quarto que os quatro “monstros” em miniatura, cuidava de todo o resto.

Certo dia, fiquei mais tempo sentado no restaurante do hotel, após o café da manhã, assistindo um programa na televisão, que me impressionou pela superficialidade.

As pessoas foram-se aos poucos, ficando somente eu, a matriarca, as crianças e naturalmente a babá. Como essa última cuidava dos traquinas, a mãe,  acredito que entediada, começou do nada uma conversa comigo.

Desviei minha atenção do programa de televisão para a senhora, esperançoso de que o conteúdo de tal diálogo seria melhor do que aquele apresentado pela loira televisiva com o seu papagaio sintético esquisito, mas, infelizmente, fui decepcionado, escutando um monte de abobrinhas, presenciando uma ignorância social e também geográfica, já que achava que o Ceará teria fronteira com a Bahia.

A mulher falava mal dos funcionários do hotel (pouco profissionalismo), da Bahia (um lugar sujo e bagunçado), dos baianos (um povo lento e preguiçoso) e reclamava de tudo aquilo que não cabia no seu pequeno universo de madame brasileira.

Eram críticas compreensíveis até certo ponto, já que a prestação de serviços na Bahia é algo que realmente deixa muito a desejar, mas totalmente incompreensíveis devido ao tom de arrogância com o qual suas palavras foram ditas.

Num determinado momento, ela parou de criticar os outros e passou a elogiar a si mesma, indo ao cúmulo do cinismo quando disse o quanto ela (como patroa) era uma pessoa boa, tão boa que estava pagando as férias da babá em Salvador.

Oops, peraí? Férias ou trabalho?

Fiquei abismado com o que ouvi e ousei-me questionar se as “férias” da babá não seriam na verdade trabalho, mais exatamente um plantão de 24 horas por dia e 7 dias por semana, mas mulher não entendeu (ou não quis entender), sorriu e apontou para a criada, dizendo que era para eu ver como ela estava feliz.

Olhei para a babá e vi como a pobre coitada estava “feliz”, catando miolo de pão do chão que as duas meninas capetas continuavam a jogar para cima, sem que se percebesse a indignidade da situação.

Despedi-me e fui embora sem mais comentários, pois tive medo de perder a diplomacia e terminar “rodando a baiana”, dando a ela motivos para supor que o baiano, além de preguiçoso e lento, também é grosso.

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O autor:

Sou apaixonado por palavras e viciado em escrever. Escrevo sobre o que vejo, escuto e vivencio diariamente, sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano e seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem luvas, sempre tentando tocar no assunto, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

2 comentários

2 comentários

  1. Marilene Cunha

    27 de julho de 2019 às 09:15

    Excelente crônica sobre a qual não poderia deixar passar a oportunidade de um breve comentário. Primeiro, por ser da terra referida; segundo, pela importância do tema que nos remete à escravidão, ainda tão presente em nossos dias. Lembrando que na Bahia a população negra corresponde a 90 por cento do seu total. Obrigada.

    • Gustl Rosenkranz

      27 de julho de 2019 às 16:21

      Obrigado pelo comentário, Marilene. É um problema que não atinge só a Bahia, infelizmente. Triste realidade de um país que parece caminhar para trás 🙁

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