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O belo é imperfeito

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O belo é imperfeito

Conformidade e simetria nos tornam um entre muitos, sem graça e sem tempero. O que nos torna belo é nossa imperfeição.

Ele caminhava com a filha na praia, onde estavam de férias, e catavam pedras. O pai estava admirado com a perfeição daquelas pequenas pedras alisadas e desenhadas pelo mar, que desbastava os desníveis, dando-lhes uma geometria quase exata. A filha resolveu então que eles deveriam procurar uma pedra bem bonita para levar para a mãe, que ficara em casa cuidando do filho mais novo.

Logo depois, o pai acreditava ter encontrado a pedra ideal, redonda, lisa, branca com listras marrons, numa uniformidade tão grande que parecia uma obra-prima de algum engenheiro ou artista plástico.

Orgulhoso por tê-la encontrado, ele a mostrou a filha:

<<Olhe, filha, achei a pedra para a mamãe! Ela não é linda?>>

A menina olhou a pedra com ar de perito, segurou-a na mão e respondeu:

<<É bonita, pai, mas eu prefiro esta aqui!>>, mostrando outra pedra, toda manchada e torta, com cantos, fissuras e até um pedaço faltando.

<<Mas porque esta, filha? Ela não é feia?>>

<<Não, pai. Olhe só: ela é diferente das outras! Ela é bonita porque é especial, como a mamãe!>>, respondeu a garota, colocando a pedra torta na mão do pai.

Ele parou por um instante, olhou bem para a pedra e concordou com a filha, pois realmente se destacava das demais.

De mãos dadas, eles caminharam de volta, com a filha cantarolando, alegre pelo presente que estava levando para a mãe, e o pai pensativo por causa da lição de vida que acabava de receber da filha. “Sim, especial como a mamãe”, refletia ele, conscientizando-se mais uma vez de que sua esposa realmente era alguém muito especial e que sua beleza não estava no padronizado, nem no conforme, mas em tudo aquilo que a destacava, que a tornava singular e única, exatamente em sua tortuosidade, em suas marcas, manchas, fissuras e cicatrizes e mesmo nos “cantos quebrados” que lhe faltam. Conformidade e simetria nos tornam um entre muitos, sem graça e sem tempero. O que nos torna belo é nossa imperfeição, já que é exatamente ela que torna alguém especial, como aquela pedra que, sim, a filha tinha razão: era tão especial como sua mãe.

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O autor:

Apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, pouco preocupado em agradar, querendo mais é mexer com o leitor, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

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