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Blog de Gustl Rosenkranz
O belo é imperfeito

O belo é imperfeito

19 de maio de 2016
211 Visualizações
Conformidade e simetria nos tornam um entre muitos, sem graça e sem tempero. O que nos torna belo é nossa imperfeição.

Ele caminhava com a filha na praia, onde estavam de férias, e catavam pedras. O pai estava admirado com a perfeição daquelas pequenas pedras alisadas e desenhadas pelo mar, que desbastava os desníveis, dando-lhes uma geometria quase exata. A filha resolveu então que eles deveriam procurar uma pedra bem bonita para levar para a mãe, que ficara em casa cuidando do filho mais novo.

Logo depois, o pai acreditava ter encontrado a pedra ideal, redonda, lisa, branca com listras marrons, numa uniformidade tão grande que parecia uma obra-prima de algum engenheiro ou artista plástico.

Orgulhoso por tê-la encontrado, ele a mostrou a filha:

<<Olhe, filha, achei a pedra para a mamãe! Ela não é linda?>>

A menina olhou a pedra com ar de perito, segurou-a na mão e respondeu:

<<É bonita, pai, mas eu prefiro esta aqui!>>, mostrando outra pedra, toda manchada e torta, com cantos, fissuras e até um pedaço faltando.

<<Mas porque esta, filha? Ela não é feia?>>

<<Não, pai. Olhe só: ela é diferente das outras! Ela é bonita porque é especial, como a mamãe!>>, respondeu a garota, colocando a pedra torta na mão do pai.

Ele parou por um instante, olhou bem para a pedra e concordou com a filha, pois realmente se destacava das demais.

De mãos dadas, eles caminharam de volta, com a filha cantarolando, alegre pelo presente que estava levando para a mãe, e o pai pensativo por causa da lição de vida que acabava de receber da filha. “Sim, especial como a mamãe”, refletia ele, conscientizando-se mais uma vez de que sua esposa realmente era alguém muito especial e que sua beleza não estava no padronizado, nem no conforme, mas em tudo aquilo que a destacava, que a tornava singular e única, exatamente em sua tortuosidade, em suas marcas, manchas, fissuras e cicatrizes e mesmo nos “cantos quebrados” que lhe faltam. Conformidade e simetria nos tornam um entre muitos, sem graça e sem tempero. O que nos torna belo é nossa imperfeição, já que é exatamente ela que torna alguém especial, como aquela pedra que, sim, a filha tinha razão: era tão especial como sua mãe.

Blogueiro, estreado na Bahia, residente em Berlim, brasileiro de nascença, alemão por opção, adepto da empatia e da gentileza, fã de boa argumentação, apaixonado por palavras, observador, escreve sob a vida e tudo que a toca.
Comentários 2
  • 1 de dezembro de 2019 em 10:46
    Genoveva

    Já conhecia seus textos sobre o Natal: Vamos a Belem e Silencio Natalino virou batucada, que enviei no ano passado por email para meus amigos e vindo aqui encontrei mais esse. Meus natais faz muiiiiiiiiiiiitos anos são assim e fico tão feliz em encontrar identificação com o que voce escreve sobre essa data tão especial, que perdeu sua essencia na vida atual e me lembro então que “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” (Fernando Pessoa), pois essa sim vai se tornar grandiosa com sua contribuição. Essa é minha escolha para compartilhar nessas semanas que antecedem o Natal e que seja seu presente para todos nós que acompanhamos voce, a permissão para distribui-lo com muitos.
    Carinho de Genoveva

    • 1 de dezembro de 2019 em 10:57
      Genoveva

      Desculpe o equivoco apos rolar a pagina, mas já fiz a correção colocando no local certo.
      Genoveva

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