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Blog de Gustl Rosenkranz
Não me chame de magrelo!

Não me chame de magrelo!

16 de julho de 2015
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Sobre aqueles que projetam sua insatisfação com o próprio peso em outras pessoas

Antes de começar, já que sei que tocarei em um tema sensível para muitos, um esclarecimento: vejo os termos “gordo” e “magro” como relativos. Para mim, não existe um peso certo padrão. O peso certo de uma pessoa é aquele peso com o qual ela se sente bem e saudável. Todo o resto é convenção superficial de uma sociedade que nos quer impor normas e nos formatar, também fisicamente. Então, quando falo de “gordos”, refiro-me às pessoas que não estão satisfeitas com o próprio peso e com seu corpo e que acham que têm que perder alguns quilos. O mesmo vale para os “magros”, só que no sentido contrário. E se uma pessoa está satisfeita com seu corpo como ele é, se não sofre de problemas de saúde por isso e não tem qualquer problema com seu peso, independentemente do que define a sociedade, então essa pessoa não é para mim nem gorda nem magra. É isso que pessoalmente defino como “peso normal” 😉

Aqui quero abordar um fenômeno que tenho observado em pessoas “gordas” (pessoas insatisfeitas com o próprio peso, mas que não conseguem emagrecer por motivos diversos) e mesmo em pessoas “magras” que morrem de medo de engordar.

Observo que algumas dessas pessoas “gordas” têm a tendência de querer transformar pessoas com menos peso que elas em “magras” ou mesmo em “magras demais” para que elas se sintam melhor na sua própria pele. Por mais que ache isso compreensivo, percebo uma certa perversidade por trás, principalmente quando os “magros demais” são pessoas que não podem se defender contra tal absurdo e terminam acreditando que realmente têm algum problema. Isso afeta, por exemplo, muitas crianças em famílias com adultos “gordos” e vale igualmente para aqueles que não são “gordos“, sabem disso, mas morrem de medo de engordar e terminam passando essa paranoia para pessoas indefesas ou inseguras.

Só para ilustrar a que ponto vai o absurdo, gostaria de contar a história de Gabriela, uma assistente social com a qual trabalhei por alguns anos. Ela tinha um problema enorme com o próprio peso, se achava gorda e praticamente só falava de comida, dietas, calorias e coisas afins. Um dia nos encontramos para discutir alguns assuntos de trabalho e, como eu tinha fome, propus que fôssemos jantar. Ela primeiro ficou sem jeito, pois disse que estava de regime, mas terminou aceitando, dizendo que comeria somente uma salada. Chegamos ao restaurante e, quando o garçom veio, ela realmente pediu uma salada, mas como entrada. Ela repetia que o cardápio tinha tanta coisa gostosa que ela tinha que provar mais alguma coisa. E esse “mais alguma coisa“ terminou sendo pelo menos umas três vezes mais do que eu comi, e olhem que eu não comi pouco! Pois bem, saímos do restaurante com ela reclamando que eu deveria estar com fome, pois não havia comido praticamente nada, etc., etc., etc. E também frisava que estava feliz por ter conseguido comer com moderação, sem quebrar muito a dieta a qual se sujeitava. Confesso que tive vontade de rir, mas me segurei. Mas minha vontade de rir passou no dia seguinte, quando ela, ainda cedo pela manhã, me ligou toda preocupada comigo (!). Ela dizia que não havia dormido bem de tanta preocupação com minha postura de alimentação e que havia refletido, concluindo que eu precisava urgentemente de ajuda, pois meu comportamento era o de uma pessoa que sofria de anorexia*.

* A anorexia é um distúrbio alimentar que provoca uma perda de peso acima do que é considerado saudável para a idade e altura. Pessoas com anorexia podem ter um medo intenso de ganhar peso, mesmo quando estão abaixo do peso normal. Elas podem abusar de dietas ou exercícios, ou usar outros métodos para emagrecer. (Fonte: www.minhavida.com.br)

É claro que entendi o que se passava, percebi a projeção de alguém que comeu muito, teve má consciência por ter passado dos limites que ela mesma havia determinado e que buscava então a absolvição de seu “pecado”, de sua gula. Até aí tudo bem, compreendi bem isso. Mas fiquei indignado por sua perversidade de ir tão longe, ao ponto de querer diagnosticar em mim um distúrbio alimentar sério como a anorexia.

É claro que esse é um exemplo extremo (he, he, eu gosto de exemplos extremos! 🙂 ), mas mostra bem o que vejo constantemente por aí, mesmo que em escalas menores. Tive uma vez uma namorada que tinha problemas com seu peso. No início, ela ainda admitia isso e falava em fazer algo para emagrecer, mas, a certa altura, começou a me chamar de MAGRELO e a falar da minha falta de peso, eu que, com 1,82 m de altura e mais de 80 kg, nada tinha de “magro”. Mais uma vez percebi alguém insatisfeito com o próprio peso e consigo mesmo e querendo transferir essa insatisfação para outra pessoa.

Gente, eu sei que estou tocando em um tema sensível e garanto que não quero aqui machucar ninguém. Só acho que na vida é sempre necessário entender que a honestidade para consigo mesmo e a autoaceitação são a base para a realização das mudanças que nós mesmos buscamos. Não adianta tapar o sol com a peneira, enganar a si mesmo, declarar publicamente que está de regime e, ao mesmo tempo, se entupir de chocolate e coisas similares, para depois, com a consciência pesada e chateado consigo mesmo, tentar projetar sua falta de disciplina em quem quer que seja.

Que fique claro: para mim o peso e o porte de alguém não me interessa, cada um é como quer ou pode ser! Não estou aqui dizendo que alguém deva engordar ou emagrecer. Meu apelo é outro: se aceite e seja feliz, ou não se aceite, mas mude o que lhe incomoda! Ficar se enrolando não faz qualquer sentido. E, caso você resolva mais uma vez perder (ou ganhar) peso e mais uma vez não consiga, seja carinhoso e complacente com você mesmo. Somos humanos e imperfeitos, nem sempre acertamos. Aceite isso, respire fundo e tente de novo. Mas na hora que bater a frustração, não transfira isso para ninguém e não tente transformar ninguém em mais “gordo” ou “magro” do que ele realmente é. Combinado? 😉


Foto: www.historiasdecinema.com

Blogueiro, estreado na Bahia, residente em Berlim, brasileiro de nascença, alemão por opção, adepto da empatia e da gentileza, fã de boa argumentação, apaixonado por palavras, observador, escreve sob a vida e tudo que a toca.
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