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O que ele vai ser quando crescer?
Imagem: ambermb (Pixabay)

Família

O que ele vai ser quando crescer?

Espero que simplesmente um ser humano livre e feliz!

Vi certa vez uma propaganda de um banco alemão, oferecendo financiamento para a casa própria. Gostei muito dessa propaganda, a achei inteligente e percebi que ela (acredito que sem querer) apontava algo infelizmente muito comum na relação entre pais e filhos: a ideia que muitos pais têm de que a forma de vida que eles escolheram para si valeria também para os filhos.

A propaganda mostrava uma menina visitando um amiguinho em sua casa “burguesa” bem arrumadinha e certinha. A menina depois saiu de lá e voltou para sua casa “hippie”, alternativa, bagunçada.

A menina chegou feliz, contando ao pai como a moradia do amiguinho era bacana, bonita, limpinha, com tudo em seu lugar. O pai, insatisfeito com o entusiasmo da filha por aquilo que para ele com certeza cheirava a “burguesia decadente”, olhou para ela e disse:

“Ah, filha, isso é coisa de gente metida a besta!”

A filha, em sua ingenuidade sincera, respondeu:

“Legal, pai. Então, quando eu crescer, também quero ser metida a besta e ter uma casa bonita!”.

A propaganda terminou com a cara patética do pai, surpreso com a reação da menina.

Recordei-me dessa propaganda ao ver, hoje cedo, um homem explicando “regras da vida” ao filho. Só que o menino questionava as coisas que o pai falava, querendo entender o motivo de algo ser desse ou daquele jeito. Ele fazia perguntas e o pai reagia com impaciência e até com grosseria, sem dar respostas ao filho, dizendo que as coisas seriam “assim e pronto” ou simplesmente mudando de assunto, ignorando o que o garoto perguntava.

Vi mais uma vez um pai (mas o mesmo vale para mães!) impondo ao filho sua forma de ver a vida e discursando a própria verdade, que valeria também para a criança, sem direito a questionamentos.

Francamente, penso que é exatamente aí que mora a causa de muitos dos problemas que pessoas adultas carregam consigo. Elas sofrem por viverem o projeto de vida de seus pais (com tudo que se tem direito: ideias, crenças, tabus, preconceitos…), um projeto que nunca foi seu, mas que elas não questionam porque não se questiona os pais ou questionam e se sentem mal por isso.

Acho importante perceber essa dinâmica e o quanto ela é nociva, só servindo para deixar as pessoas presas e se sentindo incompletas, já que vivem um projeto de vida herdado e não seu próprio.

E é importante percebê-la não somente para se libertar e conseguir viver um pouco mais feliz (ou menos infeliz), mas também para evitar que essas crianças, que crescem e também têm filhos, terminem repetindo o mesmo erro e aprisionando sua “cria” do mesmo modo que seus pais fizeram, alimentando um círculo vicioso sem fim, que gera conflitos e a infelicidade de todos.

Nossos filhos não nos pertencem e têm o direito de ter seu próprio projeto de vida, aquele projeto de vida que eles mesmos escolherem e não aquilo que os pais definem como o melhor para eles. Orientar, cuidar, educar não é determinar o projeto de vida dos filhos. Isso eles mesmos decidem. Nossa função é ajudá-los a descobrir o que realmente querem e apoiá-los no caminho até lá.

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O autor:

Apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, pouco preocupado em agradar, querendo mais é mexer com o leitor, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

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