Gustl Rosenkranz
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E o silêncio natalino virou batucada…

Silêncio natalino
Imagem: G. Rosenkranz

Caminhando pelas ruas de Berlim e curtindo o silêncio natalino e o sossego por aqui, terminei me lembrando de meu último Natal barulhento na Bahia.

Acabo de chegar da rua. Acordei cedo e fui passear com o cachorro. É dia de Natal e se sente isso lá fora: as ruas de Berlim estão praticamente desertas, poucas pessoas, nada de correria, muita calma. Foi assim ontem à noite, na véspera do Natal, e o sossego prossegue hoje, numa tradição que permite caminhar mais devagar, voltar-se para dentro e se (re)aproximar de nós mesmos e daqueles que amamos. Sim, esse silêncio é típico do Natal alemão e, pelo sentido da festa, acredito que deveria fazer parte das comemorações em qualquer canto.

Foi caminhando lá fora e curtindo muito esse sossego que me recordei de meu último Natal na Bahia e de como lá a mensagem natalina chegou diferente: ao invés de calma, paz e sossego, vi-me foi confrontado com música alta, gente histérica falando alto ou gritando, muito álcool rolando solto e, no final, até muita agressividade.

Na noite do dia 24, minha irmã estava na janela, chateada com o vizinho, que havia presenteado a si mesmo um novo aparelho de som e então, todo “feliz”, achava que todos os vizinhos deveriam saber que o sistema adquirido era potente. Além do barulho, havia outro problema: o vizinho parecia só ter um CD, pois tocava todo o tempo as mesmas canções de um tal de Silvano Sales.

Minha irmã optou por ficar com raiva, mas não reagir, pois sabia que o vizinho havia bebido e que ele ficava uma pessoa muito desagradável quando consumia álcool. Ela quis evitar confusão, pois ainda insistia em ter um Natal “feliz”.

Mas outro vizinho, incomodado com a zoada natalina infernal, resolveu acabar com aquilo, foi lá falar com o barulhento e a coisa terminou em barraco, com uma viatura da polícia chegando para apartar a briga, mas indo embora sem resolver o problema do som alto, desse e de outros vizinhos, já que, afinal de contas, também os policiais eram baianos e suponho que eles também gostavam de uma muvuca no Natal.

No dia seguinte, acordei escutando batucada de mais gente “feliz”, comemorando o Natal à moda baiana. E essa e outras batucadas, além de diversos outros eventos barulhentos, me acompanharam o dia inteiro, deixando claro que ali não havia espaço para sossego, calma, paz, reflexão e introspecção. Sim, o silêncio não cabia ali.

Sei que as coisas são como são e que não posso mudar aspectos culturais tão enraizados no povo festeiro. E respeito isso, como sempre respeito a opção de cada um. Mas, confesso, isso me deixa triste, pois vejo um povo inteiro desperdiçando uma chance enorme de ficar calado, de olhar para dentro de si mesmo, de confraternizar com outras pessoas, de viver a fundo a proposta dessa festa, que é de paz, amor e silêncio.

Ao contrário disso, o que vejo é muita inquietude, egoísmo, alarde e falta de decência e respeito pela festa em si e pelas pessoas em volta, que têm que aguentar as excrescências natalinas de quem, no fundo, só pensa em si mesmo e em seu prazer pessoal.

Questionando de onde vem essa deturpação da mensagem natalina, comecei a desconfiar que esse fenômeno deve ter a ver com a tradução da canção “Noite feliz”. No texto original, em alemão, a canção se chama “Stille Nacht, heilige Nacht”, que significa “Noite silenciosa, noite santa”. Acho que traduzir isso como “noite feliz” não foi boa escolha, pois “estar feliz” para um baiano é sempre sinônimo de muito barulho 😉

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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