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Incenso para minha vó

Cotidiano

Incenso para minha vó

Sobre a contradição de quem acredita em reencarnação, mas tem “medo de fantasma”

Entrei na loja para comprar incensos e passei admirando o que via: livros e mais livros sobre espiritualidade, reencarnação, ioga e meditação, estátuas de Buda, Ganesha e outras divindades budistas e hinduístas, velas, lenços coloridos, adesivos “Free Tibet” e mais meio mundo dessas coisas para quem está com vontade ou necessidade de futucar a alma.

O cheiro na loja era agradável, a iluminação aconchegante e uma música relaxante entoava no fundo. Vi os incensos numa prateleira no final do corredor, fui lá, peguei os que queria e fui para o caixa.

Uma mulher simpática me atendeu sorrindo. No balcão e nas prateleiras atrás dela, mais livros, cartazes, artigos de decoração, tudo sempre voltado à temática da espiritualidade, com muita ênfase em reencarnação.

Enquanto a mulher registrava minhas compras, uma outra se aproximou (acredito que era a chefe da loja) e quis saber porque eu estava comprando exatamente aquele incenso, pois ela estava vendendo muito dele e gostaria de entender porque as pessoas gostavam tanto.

Tenho o defeito de, às vezes, brincar com situações que vivo e ali, inspirado pela atmosfera à minha volta, respondi que não era para mim, mas para minha vó, que pediu que eu fosse lá e comprasse exatamente aquele incenso para ela.

<<Que lindo! Você vem comprar para sua vó!>>, respondeu a mulher, perguntando curiosa: <<Que idade tem ela?>>

<<Ah, não sei bem, senhora. Quando ela faleceu, já tinha mais que oitenta e isso já faz um tempo>>, respondi em tom sério, enquanto pagava e guardava a mercadoria.

As duas mulheres atrás do balcão ficaram pálidas e, com os olhos arregalados, me olhavam como se tivessem visto um fantasma.

Agradeci e fui embora, deixando as duas lá, olhando caladas uma para a outra.

Já na rua, confesso que tinha um sorriso no canto da boca. Sei que não é bom brincar com as pessoas assim, mas às vezes sinto uma coceirinha e não consigo me conter. Mas nesse caso nem acho que foi tão ruim, pois minha brincadeira mostrou uma grande contradição: como pode alguém que ganha a vida com espiritualidade e reencarnação se assustar porque ouviu falar de um espírito? Imagine só se elas tivessem visto um! Estariam correndo até agora 😀

 

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O autor:

Apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, pouco preocupado em agradar, querendo mais é mexer com o leitor, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

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