Blog de Gustl Rosenkranz

A mulher petroquímica

Sobre o uso excessivo de cosméticos e o mal que isso faz a meu nariz

Era uma noite de sábado, em pleno verão soteropolitano, e eu estava com amigos em um bar, perto da praia da Boca do Rio. Em certo momento, resolvemos ir dançar e fomos a uma boate não muito longe dali.

Pois bem, ficamos ali parados na boate, esperando a música melhorar, já que só vinha no início música eletrônica “enlatada”. Depois de um tempo, a música mudou e rolou até música latino-americana. Animei-me para dançar quando começou a tocar merengue, mas fiquei surpreso ao ver que, ao invés de se formarem pares, as pessoas dançavam enfileiradas como patos, com alguém dançando na frente e os outros imitando. Não gostei, procurei alguém para dançar comigo e vi uma moça que dançava muito bem (descobri mais tarde que se tratava de uma estudante de dança). Fui até ela, chamei-a para dançar e dançamos. Só que isso não foi algo fácil para mim, não pela dança em si, mas por causa da falta de ar que sentia quando me aproximava da mulher, pois ela exalava um forte cheiro de química. Seus cabelos cheiravam a química, sua pele cheirava a química e eu tinha a impressão de estar dançando com um laboratório ambulante. Gente, eu não estou exagerando: os cheiros (digo mesmo no plural, pois a mulher emanava realmente um coquetel de odores!) me sufocavam tanto que, no meio da dança, sempre de novo, eu tinha que afastá-la de mim para poder respirar. Tentei fazer isso de uma forma elegante, o que deu certo, já que quem estava olhando até achou que aquele “mandar para longe” fazia parte da dança, mas jamais esqueci aquela experiência asfixiante.

Quis saber mais tarde se aquilo fora um caso isolado ou se haveria um problema “petroquímico” maior com as mulheres baianas. Conversei com várias pessoas, principalmente com mulheres, e fiquei sabendo o que já desconfiava: dia de sábado é dia de salão (dia de faxina geral?) e é dia das mulheres “tratarem” seus corpos com química pesada, a começar com os cabelos (pentear, amaciar, alisar, enrolar…), passando pelos esmaltes de unha e indo até os cremes aromáticos que esfregam no corpo inteiro. Um dia, no supermercado, parei para ler rótulos de alguns produtos e me assustei com sua composição: glicol, polímeros, alumínio, sulfatos, cloretos, flagrâncias sintéticas e tudo que a química oferece a nosso estilo de vida moderno. Até mesmo produtos aparentemente feitos de substâncias orgânicas enganavam, pois bastava ler com calma os ingredientes para perceber a farsa.

Pensei sobre isso e confesso que tive (e ainda tenho) dificuldade de entender. Acho bom e importante que cuidemos de nosso corpo, de nossa higiene pessoal e também de nossa aparência. Um pouco de vaidade é normal e saudável. Mas agredir o corpo com química pesada em nome dessa vaidade é, para mim, ir longe demais, por causa dos danos à própria saúde, pela perda da naturalidade (muitas mulheres ficam com um cheiro padronizado de Dow Química, desconhecendo talvez até seu cheiro natural!) e também por causa de meu nariz, que sofre com isso.

Em geral, acho preocupante quando começamos a nos ocupar demais com o que é superficial, com a aparência, com a “embalagem”. Como nosso tempo é escasso, acredito que todo tempo que investimos em excesso na fachada termina faltando para o que realmente é essencial. Quando cuidamos em excesso do corpo, esse tempo termina faltando para cuidar da alma, o que, na verdade, deveria ter maior prioridade.

Sei que as mulheres (mais do que os homens!) sofrem grande pressão social para se apresentarem sempre “bonitas e bem cuidadas”. Isso as leva a exagerar em certas coisas, a consumirem muitos produtos cosméticos e até mesmo a tomar injeções e se submeterem a cirurgias plásticas. Essa pressão existe, ela é injusta, é prejudicial (pois nos faz praticar coisas que não são saudáveis!), mas acho que é possível e que deveríamos resistir a tal pressão, principalmente por se tratar do próprio bem-estar, da própria saúde, que é (ou deveria ser!) nosso bem maior.

Devemos respeitar nosso corpo (a casa de nossa alma neste mundo!), cuidando dele, mas respeitá-lo significa escolher bem o que se aplica nele ou o que se ingere, evitando excessos nocivos. É mais sábio moderar o uso de cosméticos em geral, entender que nem tudo que se encontra em supermercados e shoppings é realmente bom e assumir mais sua forma natural de ser, uma postura que não faria bem só ao corpo, mas também à saúde mental e espiritual, já que melhoraria (e muito!) a autoestima – penso que a perdemos quando investimos tanto para nos transformarmos em alguma outra coisa que não somos realmente. E, além disso, é mais agradável para quem chega perto sentir o cheiro natural da pessoa do que de um coquetel químico brabo 😉


Foto: www.lendomais.com.br

Gustl Rosenkranz

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