Gustl Rosenkranz

Marinalva e o Santo Casamenteiro

Marinalva foi à igreja pedir a Santo Antônio que a ajudasse a achar seu grande amor e terminou encontrando o santo pessoalmente.

Marinalva, uma mulher que tinha quase tudo que (acreditava que) precisava para ser feliz, resolveu subir o morro para acender uma vela e orar na igreja de Santo Antônio, na esperança de que dessa vez o santo casamenteiro lhe daria a única coisa que lhe faltava: um amor só para ela.

Sentia inveja das amigas, todas namorando, noivas, casadas ou de alguma forma amancebadas, enquanto ela repetia esse ritual de reverência ao santo pelo menos uma vez por mês, num ato de esperança e desespero, e lhe implorava que finalmente lhe mandasse o homem que ela tanto desejava ter para amar.

Subiu dessa vez a ladeira com muita impaciência, querendo chegar logo para agradecer a Santo Antônio pelos pretendentes que ele havia mandado, mas também para reclamar dele só mandar homem errado, que nada tinha a ver com ela. Além do mais, já beirava os trinta e estava mais que na hora de também ela achar seu parceiro, pois sofria com a solidão e ainda mais com as chacotas das amigas. Ela precisava de uma intervenção dele. Urgente.

O que Marinalva não sabia era que os santos costumam visitar suas igrejas pessoalmente e que, naquele dia, Santo Antônio estaria lá na sua e ela o encontraria pessoalmente.

Entrou no templo a passos apressados, passou por Santo Antônio, que estava sentado em um banco e contemplava sua igreja, e o cumprimentou, sem interromper sua marcha rumo ao altar do santo casamenteiro:

“Bença, Padre!”

“Deus te abençoe, minha filha!”, respondeu ele em tom sereno.

Ela estranhou a voz, parou e voltou-se para o santo:

“O senhor é novo aqui, Padre?”

” Não, não sou novo aqui. Sempre passo para ver como estão as coisas. E já faço isso há muito tempo.”, respondeu Santo Antônio sorrindo.

“Engraçado, nunca vi o senhor, e olhe que venho muito aqui! Venho para falar com meu Santo Antônio regularmente”, disse Marinalva.

Ele sorriu novamente e, olhando de uma forma carinhosa para ela, disse-lhe:

“Você nunca me viu? Bom, mas eu lhe vi. Você vem uma ou duas vezes, todo mês, mas teve épocas que veio com mais frequência. Você vem, acende uma vela e ora.”

“Eita, padre, com todo respeito: o senhor é esperto, hein? Fica aí só de butuca observando os outros, né? Nem veio se apresentar e conversar um pouco comigo!”, reclamou Marinalva. “Por falar em se apresentar, meu nome é Marinalva. Como o senhor se chama?”

“Antônio”, respondeu ele.

” Padre Antônio, o mesmo nome do santo. Gostei.”

Ele sorriu.

“Mas, olhe, Padre Antônio, vou ser sincera. Não estou muito satisfeita com o trabalho de Santo Antônio não. Olhe, o senhor veja só, tenho quase trinta anos, faço de tudo para conhecer alguém, vou para a balada, vou para academia, fico de olho nos moços da praia, já tentei pela internet, entrei em grupo do WhatsApp, procurei no Tinder, já paquerei no Facebook, até foto de biquíni eu botei, quer dizer, não botei, pois não quis ser muito direta, e pedi para uma amiga postar e me marcar. Assim apareceu no meu Face, mas não fui eu que postei, entendeu? Já fiz de tudo mesmo, até app que faz foto parecendo que sou mais magra eu usei. Acredite, Padre Antônio, eu fiz minha parte, tentei tudo que o senhor imaginar, fiz simpatia e até banho de folhas tomei, fui em benzedeira e em centro espírita, pois tem hora que acho que tem algo de errado comigo, já que todo mundo consegue um parceiro e só eu fico chupando dedo, ah, assim não dá, entende? Aí, venho aqui, subo essa ladeira a pé, chego suada, acendo a vela e peço a Santo Antônio que finalmente me mande alguém. Então, ele começou a mandar, eu fiquei feliz quando apareceu o primeiro, mas depois veio o segundo e o terceiro e assim por diante, foram muitos, só que nenhum prestava, entendeu? Do que adianta se Santo Antônio coloca homens para cruzar meu caminho se nenhum deles é o certo? Ah, desculpe, Padre, estou falando muito, é que sofro de ansiedade e falo muito quando estou nervosa, mas o senhor entende, né?”

“Não se preocupe, pode falar e desabafar. Mas me permita uma pergunta: será mesmo que, entre tantos pretendentes, nenhum deles lhe agradou?”, questionou Santo Antônio.

“Olha, Padre, até teve quem agradou, mas não era o certo, entende?”

“Não, não entendo. Se agradou, não bastou para se conhecer melhor e talvez tentar uma aproximação?”, Santo Antônio prosseguiu questionando.

“Bastou não, Padre. Veja só o Ronaldo. Lindo, malhado, inteligente, gentil, carinhoso e beijava ultra-mega-bem. Sabe, fiquei toda feliz, tudo parecia perfeito, mas aí perguntei sobre seu trabalho e sabe o que ele respondeu? Mecânico de automóveis numa oficina da Volkswagen! Pode? Não dá! Quando contei para as meninas, elas logo soltaram piadas. Como foi mesmo? Ah, disseram que o bom de transar com um mecânico é que ele já vem lubrificado. Imaaagina! Não dá, Padre, entende? Desculpe, Padre Antônio, eu falei de sexo, mas foram as meninas que disseram isso.”

“Você pode falar de sexo comigo, não se preocupe. Mas, se o rapaz lhe agradou, por que você não lhe deu uma chance? Por causa de sua profissão? Você não está sendo superficial em sua escolha?”, perguntou Santo Antônio.

“Ah, acho que não. Acho que é o contrário. Se eu fosse superficial, ficaria com qualquer um, mas eu só aceito se for o homem certo”, disse ela em tom seguro.

“E como seria esse “homem certo”? Que qualidades esse homem deve ter para ser o certo para você?”

“Todas!”, respondeu ela sem hesitar. “O homem certo tem que ser perfeito!”

“E como você vai saber que encontrou o homem perfeito?”

“Ah, é fácil: quando eu perceber que as meninas ficaram com inveja!”

Santo Antônio baixou a cabeça, colocou as mãos sobre o rosto e ficou assim por um instante. Estava claro que essa moça era um caso difícil. Como mostrá-la o que estava tão evidente se ela se negava a ver? Deu um suspiro e retornou à conversa:

“Houve algum outro encontro que lhe agradou?”

“Teve. Gostei muito do João Felipe, advogado, chique, só andava de terno. Falava meio mundo de idiomas. Ficamos quase um mês. Um exemplar de homem!”, contou ela em tom nostálgico.

“Mas não veio lubrificado?”, perguntou o santo com um pouco de sarcasmo.

“Ai, Padre Antônio, o senhor é padre e não pode fazer esses comentários não!”, queixou-se Marinalva.

“Desculpe, só estou tentando entender. Então, por que não deu certo?”, quis saber Santo Antônio.

“O tamanho, Padre, o tamanho. Ele era menor que eu. Não demorou muito para as meninas não perguntarem mais pelo Felipe, mas sim pelo “tampinha”. Quando a Marta o chamou de “tamborete de cabaré” ficou claro que não ia dar certo e me separei”, disse ela com a maior naturalidade do mundo. “O senhor entende, Padre, por que não estou muito satisfeita com o Santo Antônio?”

“Posso ser sincero?”

“Claro, Padre, sempre. Adoro quem diz o que pensa com sinceridade”, disse Marinalva, curiosa.

“Escute,”, disse Santo Antônio, “você disse que deseja ter alguém para amar. Isso pressupõe que você teria amor para dar, pois não é possível amar sem dar. Amar é exatamente isto: é dar amor. Entretanto, você, Marinalva, me parece mais preocupada com aquilo que você quer receber, como uma criança que fez uma lista enorme de presentes para o Papai Noel e agora espera que todos os desejos sejam atendidos. Amar o que é perfeito é fácil, mas há um problema: a perfeição (pelo menos quando se trata de seres humanos) não existe. Então, quem busca o perfeito para começar a amar jamais amará. Pense nisso. E pare de se preocupar com o que pensam os outros, pois eles são responsáveis pela felicidade deles e você pela sua. Você não será feliz se suas decisões dependerem do que acham outras pessoas. E, por favor, rasgue sua „lista de presentes“, pois ela foi criada em sua mente. Você não precisa de nada disso. Tudo que você tem que fazer é permitir sentimentos verdadeiros, seguindo o que dizem suas emoções, escutando o que lhe grita (ou cochicha) o coração. Se alguém lhe faz bem e lhe traz a quietude amorosa que você tanto anseia, não importa o que ele faz profissionalmente e muito menos interessa o que pensam suas amigas sobre sua profissão (ou sobre seu tamanho ou sobre o que quer que seja). Quer um conselho? Ligue para o mecânico. Você vai amar também sua profissão, o mais tardar no dia que vocês pegarem a estrada juntos e o carro quebrar no meio do nada.”

Por um instante, Marinalva sentiu o peso daquelas palavras e percebeu que elas a tocavam mais profundo do que queria e suportava. Optou então por ficar ofendida por o „Padre“ ter dito que ela não teria amor para dar, o que, claro, era um absurdo. Sorriu sem graça e afastou-se calada, foi para o altar de Santo Antônio, acendeu uma vela e se benzeu. Depois se despediu e foi embora.

No caminho para casa, descendo a ladeira, ela pensou:

“Eu, hein, que padre chato! Prefiro conversar com meu Santo Antônio. Ele sim me entende e não fala tanto. Vou ter cuidado para só ir na igreja quando esse Padre Antônio não estiver lá.”

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Gustl Rosenkranz

Blogueiro, estreado na Bahia, residente em Berlim, brasileiro de nascença, alemão por opção, adepto da empatia, apaixonado por palavras, observador, escreve sob a vida e tudo que a toca. Contato: gustl.rosenkranz@outlook.com

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