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O que é que eu vou fazer aqui esse tempo todo?

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O que é que eu vou fazer aqui esse tempo todo?

Sobre a perda de capacidade de suportar o silêncio, o outro e a si mesmo.

Sobre a perda de capacidade de suportar o silêncio, o outro e a si mesmo.

Um casal chegou a uma pousada numa praia meio afastada de Florianópolis. Eu também estava hospedado nessa pousada e presenciei uma cena que me deixou pensativo:

O casal chegou e ficou encantado com a pousada. Os dois deixaram as coisas no quarto e voltaram dizendo que tudo estava uma maravilha e que era ali mesmo que queriam ficar. O dono da pousada sorriu e disse que sim, que eles iriam adorar ficar ali e descansar. Eles perguntaram então pelo caminho para a praia e lá se foram passear e ver o mar. E eu fiquei ali de conversa com o proprietário.

A praia

A praia

Não demorou muito e voltaram indignados, irritados, se queixando com o dono da pousada que aquela praia não prestava. Eu fiquei surpreso, pois a praia era muito bonita e bastante sossegada, aliás esse havia sido o principal motivo de eu estar ali. Quando o dono, também sem entender, perguntou o porquê da indignação, veio a resposta de que ali não havia nada para fazer, que a praia era deserta e um verdadeiro tédio, sem banana boot, sem jet-ski, sem cadeiras, sem sombreiros, sem gente tomando banho de sol, não tinha bares, nem cafés, não tinha nada e mais nada… A mulher olhava com uma expressão irada, como se alguém a tivesse ofendido profundamente e perguntou “o que é que eu vou fazer aqui esse tempo todo?”. Resumindo a história do casal: ele pagou a diária, pegou as malas e foi embora.

O dono da pousada e eu ficamos pasmos, sem entender aquilo. Por um lado, respeito a opção de vida de cada um e sei que nós temos diferentes gostos e necessidades. E é bom saber que existem por aí pousadas, hotéis e resorts que oferecem a badalação e a distração que essas pessoas procuravam, mas, por outro lado, fiquei encucado com a pergunta da mulher “o que é que eu vou fazer aqui esse tempo todo?”. Poxa, era um casal, duas pessoas que estão juntas voluntariamente e que provavelmente supõem que se amam. Será que não basta estar junto com a pessoa amada? Será que não basta ter tempo para si e para o outro, será que um lugar calmo, cercado de natureza não seria uma boa chance de ter simplesmente tempo, tempo para descansar e tempo para se concentrar no que é essencial, tempo até mesmo para se descobrir e também para recarregar as baterias, sem todo esse “circo” que normalmente nos cerca?

Não me compete julgar essas pessoas. Elas são livres para escolher a forma de vida que acharem melhor para si. Mas registro que esse casal não foi para mim nenhuma exceção, já que o mundo de hoje me parece mesmo sempre em busca de distrações e divertimentos, de desvios da atenção, de uma exteriorização das emoções, talvez como fuga de uma introspecção, talvez como fuga de si mesmo.

Nada disso seria grave se, ao mesmo tempo, houvesse a impressão de que as pessoas estão realmente felizes com tal postura em relação à vida. Mas não é isso que percebo. Posso estar errado (já que não posso olhar dentro das pessoas!), mas não tenho a impressão de que essa tendência de fugir do silêncio, da calma e de si mesmo tenha deixado o ser humano mais feliz. Se isso fosse assim, não perceberíamos o paradoxo que é o crescimento acentuado do consumismo e da procura por entretenimento e simultaneamente uma maior busca por autoajuda e coisas que acalantem a alma. Consumimos também tudo aquilo que julgamos ser alimento para o espírito, a filosofia budista está em alta, “namastê” anda na boca de muitos, meditação, ioga, espiritismo ou mesmo fanatismo religioso temperam esse mundo moderno. Tenho a impressão de que buscamos nos encontrar, mas, no fundo, andamos mais perdidos que achados. E desconfio que nos perdemos mais e mais por fugirmos de nós mesmos.

Sou uma pessoa sensível ao barulho. Sempre fui assim. E sempre preferi o silêncio ao alarde, sempre preferi o sossego ao excesso de atividades, sempre gostei mais de estar comigo mesmo ou somente com alguns do que com grupos grandes de pessoas. E tenho que constatar que, infelizmente, está cada dia mais difícil encontrar esse silêncio, em um mundo cada dia mais populoso, mas eletrônico e mais motorizado. É quase impossível estar próximo a pessoas e não escutar PINGs, PENGs e TRALILARÁs de celulares, é quase impossível não escutar um carro passando (ou mesmo uma motocicleta com seu escape manipulado especialmente para zoar!) e praticamente sempre tem alguém falando ou gritando por perto. Parece que desaprendemos a calar nossa boca, nossa mente, nossa alma. E desconfio que por trás de tudo isso pode se encontrar a perda de capacidade de suportarmos uns aos outros, de suportarmos a nós mesmos, de suportarmos a vida em sua essência.

O casal se foi com a mulher dizendo “o que é que eu vou fazer aqui esse tempo todo?”. E eu fiquei pensando: será que eles se bastam tão pouco para precisar de um banana boot na praia para se sentirem bem? Será que eles não se suportam o suficiente para suportarem também a calma e o silêncio? Bom, espero de coração que eles tenham encontrado o lugar certo que procuravam. E espero também que eles não tenham ido embora para fugir de si mesmos, pois, se foi esse o motivo, eles vão perceber mais cedo ou mais tarde que se levaram consigo.


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O autor:

Sou apaixonado por palavras e viciado em escrever. Escrevo sobre o que vejo, escuto e vivencio diariamente, sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano e seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem luvas, sempre tentando tocar no assunto, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

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