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A síndrome do avental

Comportamento

A síndrome do avental

Sobre pessoas que, ao receberem um pouco de poder, começam a se achar superiores às demais

Você seguramente já passou por isso: você vai a um órgão ou empresa para resolver algo e se vê deparado com algum funcionário do outro lado do balcão que lhe trata com arrogância, como se fosse superior a você e como se ele estivesse lhe fazendo um favor.

Chamo isso de “síndrome do avental” porque fui uma vez ao médico, cheguei cedo e tive que esperar um pouco. Nesse meio tempo, chegou uma funcionária do consultório, toda humilde, cabisbaixa e passando a impressão de pessoa insegura. Essa mulher desapareceu para dentro de uma sala junto à recepção, vestiu seu avental de trabalho e voltou transformada, arrogante, falando com pacientes em tom agressivo, deixando bem claro que quem mandava no pedaço era ela. Confesso que me assustei ao ver como aquela mulher, que chegou “tímida”, terminou virando um “monstro” só por ter vestido o avental.

Hoje mesmo estava observando isso em um grupo que administro no Facebook. O grupo cresceu bastante e foram precisos mais moderadores. Pois bem, membros comuns do grupo se ofereceram e foram aceitos. E, mais uma vez, observei a mesma coisa: essas pessoas se transformaram, começaram a se comportar de uma forma estranha, muitas postagens dos membros no grupo viram piadinha (por trás dos bastidores!) e correm soltos os comentários desrespeitosos dos moderadores, que falam como se eles (os moderadores) fossem especiais (melhor que os outros).

Esse “avental” pode assumir muitas formas, podendo ser um capacete de cor diferente numa obra, um uniforme, um crachá, um balcão, paletó e gravata ou qualquer coisa que sirva como distintivo no momento.

Já observei isso, por exemplo, em médicos, recepcionistas, porteiros, vigilantes ou mesmo policiais que, ao vestirem uma farda, se acham os “reis da cocada preta”, tratam outras pessoas (que então julgam inferiores!) com desfeita e, muitas vezes, até com chacota. E já observei isso também em caixas de supermercado, em repartições, em taxis, em hotéis, em call centers, em lojas, em aeroportos, em redes sociais, enfim, praticamente em todo canto.

Desconfio que essas pessoas ajam assim por causa dos modelos que conheceram em suas vidas, por terem visto pessoas tratando outras pessoas do mesmo modo ou talvez até mesmo por terem sido vítimas de tal comportamento.

A soberba dessa gente é tão grande que não adianta apelar ao bom senso e convidar à reflexão e a analisar o próprio comportamento, pois, uma vez que alguém assim “veste o avental”, ele se sente o dono da razão. E, se ele tem razão, é claro que os outros estão errados.

Esse fenômeno não seria tão grave se ficasse limitado às pequenas coisas. Mas ele se transmite também para setores importantes da sociedade, ou você acha que com políticos/governantes seria diferente? É a mesma coisa! Muitos, ao assumirem um cargo, acham que assim têm então um rei na barriga e que podem se comportar como bem entenderem.

Tal comportamento é um desvio, um desvio sério, pois aquele que veste um avental (ou um uniforme, ou se posiciona atrás do balcão/guiché…), deveria vesti-lo para trabalhar e, assim, para servir quem procura uma ajuda ou um serviço e não para se achar superior a ele.

Penso que a melhor forma de lidar com essa gente é, sempre que possível, ignorá-la. Quando isso não for possível, mantenha a calma e a educação, mas deixe claro à pessoa transtornada por essa síndrome que ela, com ou sem avental, não é e jamais será melhor que ninguém, pois temos todos sempre o mesmo valor.

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O autor:

Apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, pouco preocupado em agradar, querendo mais é mexer com o leitor, de forma clara, suavemente subversiva, mas sempre carinhosa e profunda.

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