Gustl Rosenkranz
Falar inglês basta para viver na Alemanha?

Falar inglês basta para viver na Alemanha?

Com certeza, a língua alemã pode ser um empecilho para brasileiros que gostariam de mudar para a Alemanha e muitos perguntam então se falar inglês seria suficiente para viver na Alemanha ou se seria imprescindível aprender alemão.

Em grupos do Facebook sobre a Alemanha, é muito comum aparecer um brasileiro ou uma brasileira dizendo que não fala alemão e querendo saber se daria para viver aqui falando (bem ou menos bem) inglês. E é muito comum também essa pessoa receber respostas contraditórias, com gente dizendo que sim, outros afirmando que não.

E, então, inglês basta ou não para viver na Alemanha? Aqui minha opinião:

Para mim, ambas as respostas estão corretas, pois, em primeiro lugar, tudo depende do que a pessoa que perguntou define como “viver na Alemanha”. Para uns, isso significa “sobreviver”, já outros acham importante ir além disso e querem “viver bem” na Alemanha.

Para sobreviver pode bastar. Conheço até brasileiros sobrevivendo aqui há décadas falando somente português.

Se alguém está chegando para trabalhar, a depender da área, é possível que possa ou até tenha que falar inglês no trabalho e, em cidades maiores, principalmente onde a população é mais jovem e onde há muitos turistas, a pessoa consegue se virar também nas ruas. Se você vier para trabalhar na área de marketing ou TI, por exemplo, e vier viver em Berlim, em Mitte ou Kreuzberg, você muito provavelmente poderá (sobre)viver por um bom tempo falando inglês.

Já em lugares menores ou bairros mais afastados de cidades grandes, a coisa é diferente. A chance de topar com gente que fale inglês cai bastante e não saber alemão pode limitar muito a comunicação.

Além disso, são limitadas as áreas onde se acha emprego sem falar alemão.

Mas mesmo quem vive em Berlim ou outra cidade grande, trabalha e se vira no dia-a-dia com o inglês tem uma vida limitada, já que não entende muita coisa à sua volta e pode se ver envolvido em situações complicadas por não compreender o idioma local e não saber se explicar nele.

Um dia desses, vi uma cena que ilustra bem o que quero dizer: duas mulheres, cada uma com um cachorro, brigavam na rua. Uma xingava em alemão e a outra se explicava em inglês e ambas não se entendiam.

Fui lá intermediar e a coisa não passava de um mal-entendido: o cachorro da mulher que falava inglês (e que, como fiquei sabendo mais tarde, vinha do Chile e já vivia há 2 anos em Berlim) tinha sido operado naquele mesmo dia e o veterinário recomendou que ele não brincasse com outros cachorros. Só que os caminhos das duas mulheres se cruzaram e o cão da alemã correu na direção do outro. A chilena, tentando proteger seu animal debilitado, tomou a frente e tentou frear o cachorro que se aproximava, colocando a perna para ele não passar. Ela ainda explicou (em inglês), mas a outra não entendeu. Nos olhos da alemã, a chilena era metida a besta, não queria contato entre os cachorros e teria tentado chutar o seu. E ela, indignada, xingou (em alemão) e a outra não entendeu.

Uma história mais ou menos inofensiva, mas tente então imaginar uma situação mais complexa, como um acidente no trânsito ou briga entre vizinhos ou qualquer outra coisa chata, que muitas vezes precisa de uma boa comunicação para serem resolvidas ou pelo menos não piorarem.

No início, saber inglês é uma mão na roda, ajuda muito e facilita a chegada de quem (ainda) não fala alemão. Só que é bom ter cuidado, pois isso, que ajuda no início, pode atrapalhar depois na integração na vida local. Uma pessoa que „se vira“ com o inglês pode se acomodar e praticamente desistir de aprender o alemão, que foi o que ocorreu com a chilena do exemplo acima, que não falava praticamente nada de alemão, mesmo depois de 2 anos aqui.

Em minha opinião, pessoas que se arranjam falando inglês e não aprendem alemão (suficiente), terminam vivendo numa espécie de bolha, já que tendem a ignorar muitas coisas à sua volta por não as entender. De certa forma, isso isola a pessoa.

É difícil para mim imaginar minha vida sem as informações que recebo diariamente em alemão, no rádio, na televisão, nos jornais, em uma propaganda no metrô, em conversas com vizinhos ou num bate-papo na padaria e em tantas outras situações que enriquecem (e muito!) meu dia-a-dia. Não gostaria de viver assim, pois isso para mim não seria „viver bem”.

Portanto, para terminar, repito que inglês basta e não basta para viver na Alemanha. Para o início, com certeza será de grande ajuda. Mas o que vem depois depende do que você espera da vida aqui. Se sobreviver (em uma cidade grande), se virando de alguma forma, sem entender muitas coisas, lhe for suficiente, então falar inglês basta. Mas, se você quiser algo mais que isso e deseja viver bem (integrado) na Alemanha, entendendo o que ocorre à sua volta, então não basta.

Caso deseje utilizar algum conteúdo deste blog, leia, por favor, estas informações.

Gustl Rosenkranz

Blogueiro, estreado na Bahia, residente em Berlim, brasileiro de nascença, alemão por opção, adepto da empatia, apaixonado por palavras, observador, escreve sob a vida e tudo que a toca. Contato: gustl.rosenkranz@outlook.com

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