Blog de Gustl Rosenkranz

Alemanha: mitos e realidade

Sobre a realidade alemã e a forma transfigurada como ela é vista mundo afora

Sobre a realidade alemã e a forma transfigurada como ela é vista mundo afora


Quem já leu outros textos meus já deve ter percebido claramente: eu gosto da Alemanha e do povo alemão, acho que aqui é um bom lugar para se viver e me identifico muito com a cultura local. Mesmo assim, não sou ingênuo e sei que a Alemanha não é nenhum paraíso e que também aqui há muitos problemas sérios, que devem ser abordados com a devida clareza, já que de nada adianta tapar o sol com a peneira e torcer ou omitir a realidade. E é por gostar deste país e achar que ele merece ser tratado com seriedade e não com base em transfiguração, mitos e contos da Carochinha que gostaria de tocar aqui em alguns pontos, que talvez ajudem a tornar a imagem que se tem da Alemanha um pouco mais sóbria.

Tenho registrado um aumento de interesse de pessoas de todo o mundo, inclusive brasileiros, por este país, que tem se tornado destino para muitos migrantes. A atratividade da Alemanha tem crescido também devido à situação econômica no resto da Europa, que faz com que países como Espanha, Portugal e Itália, entre outros, não somente deixem de atrair migrantes, mas também sofram eles mesmos com uma grande onda de emigração. Muitas pessoas, principalmente jovens, têm deixado seu país para tentar a sorte principalmente na Alemanha, na Áustria, na Suíça e em países escandinavos.

Ao mesmo tempo, vejo a disseminação de artigos tendenciosos sobre a Alemanha, que mostram somente um lado da realidade, “vendendo” a imagem deste país de uma forma deturpada, tanto no sentido negativo como positivo. E meu foco aqui será colocado nessa deturpação positiva.

Li hoje, por exemplo, no site da Deutsche Welle, o artigo Comunidades de troca e doação combatem desperdício na Alemanha. O que me incomodou no artigo foi a imagem passada, de um povo que faz isso por consciência de “solidariedade e senso ambiental”, mas deixando de citar a causa maior desse movimento: o aumento da pobreza na Alemanha, com ricos cada vez mais ricos, pobres cada vez mais pobres e uma política que favorece despudoradamente esse desenvolvimento.

Die Tafel - Foto: www.cafe-future.net
Die Tafel – Foto: www.cafe-future.net

Fato é que na Alemanha existem cada vez mais cidadãos que, apesar de receberem ajuda do Estado, não têm conseguido viver de uma forma decente. Muita gente se vê obrigada até mesmo a catar garrafas na rua para entregar nos supermercados e receber o dinheiro do depósito, o número de pedintes nas ruas em cidades maiores tem subido de uma forma claramente perceptível e há pessoas que passariam até fome se não fosse a ajuda assistencialista de algumas organizações, como a die Tafel (vide foto acima), que coleta doações de alimentos e distribuem entre pobres, e isso em várias cidades alemães. É nesse contexto que cresce a mentalidade e a necessidade (!) de compartilhamento e doação, o que é louvável, mas o artigo peca, e peca feio, ao omitir tal realidade, passando uma impressão de um povo alemão consciente, unido e solidário, e falando de “um notável espírito de comunidade que circula no país”, o que é uma meia verdade.

Numa coisa o povo alemão, em geral, não é nada diferente do resto do mundo: ele é consumista, ele é voltado às próprias necessidades, ele desperdiça muito e o senso de solidariedade não é tão forte assim. Sim, a solidariedade existe, mas são pessoas e grupos isolados que a praticam, sendo que a “massa cinzenta” não está muito preocupada com o destino e barrancos de outras pessoas.

Hoje se admira a Alemanha pelo seu sucesso econômico e seus recordes de exportação, mas se ignora ao mesmo tempo a forma como este país chegou a esse ponto: através de uma política econômica injusta, beneficiando bancos, grandes empresas e pessoas de altíssimo poder aquisitivo, permitindo abusos e falcatruas, cujas consequências, no final das contas, sempre terminam sendo arcadas pelo povo. Um bom exemplo é a política alemã no campo energético: apesar do preço da energia elétrica ter caído bastante nas últimas décadas, apesar das companhias elétricas e seus acionistas terem ganhado bilhões de euros, o preço da energia elétrica para o cidadão comum continua subindo, ao ponto de hoje haver mais de 600 mil pessoas que vivem no escuro por não poderem pagar a conta de luz (um número que continua crescendo). Como desculpa para o aumento do preço se alega atualmente o financiamento de uma nova infraestrutura no setor, sem energia nuclear e com mais energias renováveis, mas fica difícil de compreender então porque que boa parte da indústria é isenta de tais custos e porque os bilhões de lucro das companhias elétricas também são poupados.

Um país de alta consciência ecológica?

Bom, vamos ficar no assunto “energias renováveis”. Muita gente admira a Alemanha por optar contra a energia nuclear e investir em outras fontes. Até aí, tudo bem. A ideia é boa e realmente louvável. Mas e a prática? Na prática, se continua investindo em usinas de carvão, que são extremamente poluentes. Algumas estão sendo construídas neste momento, muitas outras estão planejadas para um futuro próximo.

Fonte: www.greenpeace.de
Fonte: www.greenpeace.de

E vamos falar também dos carros: apesar da Alemanha ser líder mundial em tecnologia automotiva, o carro elétrico por aqui ainda usa fraldas e nem sabe ainda engatinhar, já que os grandes fabricantes de automóveis têm pouco interesse em deixar de vender seus carros potentes, que são símbolo de status tanto por aqui como no resto do mundo. Tentativas da União Europeia de frear o consumo de combustíveis fósseis através de regras mais severas para a emissão de gás carbônico por carros sempre são bloqueadas pelo governo alemão.

Ah, e o lixo, separados pelos alemães de forma tão exemplar? Esse lixo é realmente reciclado? Só em parte! O resto (na verdade, a maior parte) é simplesmente queimado. Ou seja, os prédios têm vários tonéis de lixo, o povo paga por esses tonéis e é obrigado a separar papel, embalagens, lixo orgânico e vidros, mas, no final, quase tudo é jogado junto no incinerador de alguma usina, ou pior ainda: o lixo é colocado em navios que estariam voltando vazios para a África e exportado assim de forma ilegal, mas pelo jeito aceita, já que todo mundo sabe e ninguém faz realmente algo contra.

Se comparada com outros países, a Alemanha pode mesmo parecer que tem uma alta consciência ecológica, mas o fato da coisa ser pior por aí, lá ou acolá não significa que ela está bem por aqui.

A Alemanha, um país pacífico?

Depois de duas guerras mundiais, muitas décadas de divisão política, um forte trabalho de conscientização sobre os perigos de uma guerra e um grande esforço de reabilitação no mundo e boas relações com os vizinhos, pode-se acreditar que Alemanha seja um país pacífico. E de fato: o povo alemão é pacífico, rejeita guerra e se dependesse da opinião pública, a Alemanha não se envolveria em conflitos armados mundo afora. Mas e a política? Pensa e vê da mesma forma? Infelizmente não.

Por um lado, o discurso é de pacifismo, mas, ao mesmo tempo, a Alemanha é um dos maiores exportadores de armas do mundo. O lobby da indústria bélica alemã é fortíssimo. Um bom exemplo pôde ser visto há pouco tempo, quando, no âmbito da crise da Ucrânia e das sanções contra a Rússia, o ministro da economia Sigmar Gabriel (SPD) anunciou uma maior rigorosidade na autorização de exportações de armas (na verdade, nada de novo. Ele só ameaçou aplicar realmente as leis e regras já existentes!), a “gritaria” foi grande, principalmente por parte de políticos dos partidos CDU e CSU. Mas não demorou muito para o governo aprovar o fornecimento de armas a curdos no Iraque. Ou seja, enquanto rola o discurso de pacifismo, ao mesmo tempo sempre se arruma uma ou outra “guerrinha” para que a exportação de armas continue, a indústria de armas sorria e a opinião pública seja driblada por um discurso “amarelo”, que, por exemplo, nunca chama um conflito pelo nome que merece: guerra!

Um país aberto à imigração?

A população alemã está envelhecendo, já que o alto padrão de vida (que ainda existe!) e remendos da medicina fazem com que as pessoas vivam mais tempo. Ao mesmo tempo, uma política precária de apoio a famílias tem feito com que nasçam poucas crianças por aqui. Se a Alemanha não quiser ter problemas demográficos sérios no futuro, ela tem que se abrir à imigração. Na verdade, a presença de migrantes na Alemanha já é uma realidade desde os anos 60, quando foram trazidos, entre outros, turcos, gregos e portugueses para suprir a escassez de mão de obra que predominava na época. Esses trabalhadores, que vieram temporariamente, terminaram ficando e pregam hoje a sociedade alemã, tornando-a uma mistura de povos e raças, o que pode ser percebido claramente em cidades grandes como Berlim.

Apesar dessa realidade, políticos conservadores tentam satisfazer seus eleitores, negando que a Alemanha seja um país de migrantes. Como eles no fundo sabem que não há alternativa, mas também pelo fato da indústria ter um poder mais forte junto a políticos que seus próprios eleitores, eles terminam agindo de uma forma para mim muito duvidosa: ao invés de buscar um diálogo aberto sobre o assunto na sociedade, esses políticos continuam pregando que a Alemanha não precisa de migrantes, mas permitem a imigração “pelas portas do fundo”, garantindo assim o suprimento de mão de obra para grandes empresas.

O mito da escassez de mão de obra

Enquanto a indústria alemã choraminga a falta de mão de obra qualificada, fazendo pressão para o governo permitir a entrada de migrantes no país que tenham boa formação, muitos jovens alemães terminam a universidade, exatamente nas áreas procuradas, mas ficam desempregados, vivendo de estágios e de ajuda da família ou do Estado. Isso não é uma contradição? Sim, é, e o motivo é simples: barateamento da mão de obra, já que um engenheiro estrangeiro normalmente aceita trabalhar por um valor muitas vezes bastante abaixo do que ganharia um engenheiro alemão. Além disso, enquanto se reclama da falta de pessoal qualificado, a Alemanha tem deixado muito a desejar no que diz respeito à educação de jovens e crianças de famílias com poder aquisitivo mais baixo (o que já foi comprovado por diversos estudos, inclusive de organizações internacionais). Então, enquanto se reclama da falta de mão de obra, se desperdiça a mão de obra do futuro, negando a muitos jovens o acesso a uma boa formação profissional.

O mito do desemprego baixo

A Alemanha brilha na Europa com seu baixo índice de desemprego. Realmente, o ex-chanceler alemão Gehard Schröder, com seu plano Agenda 2010, reduziu bastante o desemprego na Alemanha, mas essa reforma foi mais útil para os patrões do que para os empregados: empresas podem hoje pagar um salário muito baixo, que não é suficiente para alguém viver, e esse alguém, apesar de trabalhar como qualquer outra pessoa, se vê obrigado a pedir ajuda social ao Estado. Algumas pessoas são obrigadas a trabalhar por 1 euro por hora. Se elas se recusam, perdem o direito de auxílio estatal. Além disso, as estatísticas de desemprego são claramente manipuladas, por exemplo: uma pessoa desempregada, que faz algum curso de aperfeiçoamento profissional pago pelo Estado, sai da estatística e não conta mais como desempregado. E isso é maquiar números. Quem vive aqui e encontra-se desempregado sabe o quanto é difícil achar um emprego na prática.

O racismo na Alemanha

Apesar de não considerar a sociedade alemã racista, sei que o racismo existe aqui, como em qualquer lugar. Mas acho perigoso o que observo: há racistas influentes, gente com dinheiro e boa formação, que faz de tudo para criar um clima de inimizade entre alemães e migrantes, espalhando propaganda mentirosa, manipulando números em seus discursos e fazendo com que gente pela a Alemanha afora, principalmente em pequenas localidades, termine acreditando que estamos sendo invadidos por estrangeiros, que vêm para cá para viver às custas do Estado. Não raramente se escuta algum discurso populista de algum político, que usa esse clima para desviar a atenção da população dos problemas reais, transformando os migrantes em um “fantasma social” que mete medo em certas pessoas, principalmente naquelas não muito bem informadas. Em agosto, o partido neonazista NPD não conseguiu se reeleger para o Parlamento na Saxônia porque faltaram 0,1%. Isso significa que 4,9% dos eleitores daquele estado alemão simpatizam com um partido de extrema direita. E isso é muita gente! Mas felizmente é uma minoria. Enquanto a maioria dos alemães (inclusive políticos!) continua aberta para o mundo, essa minoria vive uma realidade paralela, rejeitando tudo que é diferente. A maior parte dos alemães recebem migrantes de braços abertos, no mínimo com respeito e ninguém precisa ter medo de vir para cá, mas é bom ter cuidado com certos lugarejos pelo interior afora, mas também em cidades grandes, como Berlim, existem cantos onde migrantes não são bem vistos. É triste, mas é assim.

Foto: chip.de
Foto: chip.de

Desigualdade social

Não há dúvidas de que a Alemanha é um país rico, na verdade riquíssimo! Mas, como já dito no início, a injustiça social cresce. E há um sistema por trás disso: os ricos influenciam os políticos, que por sua vez tomam decisões clientelistas, que fortalecem a posição desses ricos, às custas das classes mais baixas da sociedade. Os lucros de grandes empresas e bancos são privados, mas seus prejuízos são coletivizados, sendo assumidos não raramente pela população, sempre com alguma desculpa difícil de entender (normalmente se alega o salvamento de empregos, o que muitas vezes nem é verdade).

Um bom exemplo de desigualdade é o mercado imobiliário na Alemanha. A maior parte da população alemã mora de aluguel, inexistindo praticamente qualquer incentivo público para aquisição de imóveis por pessoas de baixa renda. Ou seja, se uma família quiser ter sua casa própria, ela tem que se virar com dinheiro próprio e empréstimos de bancos. Mas quando um rico compra um apartamento ou uma casa só para investir e formar patrimônio, ele recebe diversos incentivos fiscais para isso. Existem programas de “habitações sociais”, que são alugadas por um preço mais baixo, mas também aqui se percebe um acanhamento por parte do poder público, talvez porque a construção dessas moradias enfraqueceriam os lucros de aluguel da iniciativa privada, já que aumentaria o número de apartamentos no mercado, fazendo o preço cair.

Pobreza na Alemanha
Foto: morgenpost.de

E enquanto vemos o chiquismo da alta sociedade, o esbanjamento de dinheiro, as viagens e festas caras dos ricos, tudo isso exposto abertamente, pois esse povo quer ser visto, vemos também um aumento contínuo de pedintes nas ruas, pessoas que catam garrafas para sobreviver, aposentados que saem de casa de madrugada para entregar jornais, já que a aposentadoria não é suficiente para viver, crianças que crescem sem perspectivas só por terem nascido em famílias pobres, gente que precisa recorrer a ajuda de instituições de caridade para sobreviver. Enquanto em Berlim, por exemplo, falta até mesmo papel higiênico em algumas escolas, o governo do estado gasta milhões para financiar filmes e os balangandãs que acompanham os eventos de gente com muito dinheiro.

Outro exemplo de desigualdade e injustiça social é o sistema de saúde alemão. Qualquer trabalhador é obrigado a fazer parte do seguro de saúde público, que é baseado no princípio de solidariedade. Já os ricos podem optar, e eles optam normalmente contra a solidariedade e pelo seguro particular, que os proporciona um melhor atendimento médico. Sim, isso é triste, mas real: quem tem seguro particular é tratado preferencialmente, já que esses seguros permitem que os médicos cobrem mais.

Termino como comecei: ressaltando que gosto muito da Alemanha e de viver aqui. De forma alguma, meu texto tem o objetivo de dar razão a “migrantes azedos” e pessoas desinformadas, que reclamam por reclamar ou simplesmente criticam a Alemanha por antipatia. Eu aponto aqui problemas por acreditar que eles têm que ser apontados, pois uma visão sóbria da coisa é melhor do que qualquer ilusão. E toco nesses pontos com o respeito de quem já vive há muito tempo aqui para saber que este país tem também seu lado maravilhoso. Mas deixo claro: a Alemanha não é nenhum paraíso!

Para mais informações sobre o tema “exportação ilegal de lixo”, recomendo os seguintes links (em alemão):

Sobre a separação de lixo na Alemanha (em alemão):

No escuro por não pagar a conta de luz (em alemão):

As usinas de carvão na Alemanha:

Sobre a situação demográfica na Alemanha:

 

Gustl Rosenkranz

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