Gustl Rosenkranz
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A Alemanha é mais que cerveja!

Acho que deveríamos ter cuidado ao falar da Alemanha como um todo. É claro que existem coisas tipicamente alemãs, com validade para todo o país, mas é preciso ter uma boa percepção e conhecer um pouco a história e as peculiaridades regionais para saber identificá-las. Acho que é uma questão de modéstia reconhecer que quem chega de fora precisa de algum tempo para entender a vida e a cultura na Alemanha.

Atualmente, podemos notar um grande interesse de brasileiros pela Alemanha. Há muita gente vindo ou querendo vir para cá e a busca de informações é enorme. E, ao mesmo tempo, há gente que já está aqui e que se prontifica a informar os “leigos” sobre a Alemanha, algo muito louvável, não fossem as excrescências.

Sei que a cultura alemã é complexa, já que não existe “um povo alemão”, já que este país foi criado através da união de diversos povos. É por isso que não se fala na história do “povo germânico”, mas dos “povos germânicos”. Basta viajar pela Alemanha para perceber que as diferenças culturais entre as regiões são imensas. A Alemanha não é a mesma em Berlim, na Saxônia, na Baviera ou na Suábia, há diferenças entre a parte ocidental e a parte oriental (devido também à divisão da Alemanha em dois países até 1990) e até idiomaticamente isso aqui é uma torre de Babel: existem diversos dialetos que são tão diferentes que pode acontecer de alemães não entenderem o que outros alemães dizem (já me vi sentado em um restaurante com alemães da Baviera e da Saxônia que não entendiam o que eles mesmo falavam, sendo que tive que servir de intérprete, já que meu ouvido estava acostumado em decifrar dialetos).

É por isso que eu, mesmo após 25 anos vivendo aqui, tenho muito cuidado ao falar da Alemanha como um todo. É claro que existem coisas tipicamente alemãs, com validade para todo o país, mas é preciso ter uma boa percepção e conhecer um pouco a história e as peculiaridades regionais para saber identificá-las. Acho que é uma questão de modéstia reconhecer que quem chega de fora precisa de algum tempo para entender a vida e a cultura na Alemanha. Mas não é isso que vejo. Registro que há brasileiros que estão há pouco tempo aqui, alguns até mesmo recém-chegados, que saem analisando, constatando e afirmando coisas sobre a Alemanha como se fossem verdades absolutas, sem considerar sua própria falta de conhecimento sobre o país e sem cogitar que podem estar completamente errados em suas afirmações. É gente que transforma suas experiências pessoais e suas impressões em “fatos sobre a Alemanha” e que faz questão de vender “seu peixe” ao mundo, muitas vezes desinformando mais que ajudando. Sim, é essa desinformação que me incomoda, já que uma pessoa que está fora do país e busca informações pode terminar tendo uma imagem totalmente deturpada da vida por aqui.

Penso que muitos agem assim por ingenuidade e por realmente acreditar no que viu, escutou ou viveu, mas percebo em alguns certa arrogância. Uma vez, quis alertar um casal praticamente recém-chegado em Berlim sobre algumas afirmações erradas em seu vídeo no Youtube e me vi confrontado com uma enorme prepotência. Recebi a resposta hostil de que eu deveria parar de achar que sou “dono da Alemanha”.

Hoje mesmo vi alguém afirmando que alemães têm o costume de comer “carne moída crua no café da manhã”. De fato, há pessoas que gostam. Mas há muitos alemães que não gostam disso. O café da manhã é um bom exemplo, pois percebi que os costumes de desjejum varia muito de região para região, de família para família, de pessoa para pessoa. Há quem goste de geleia no pão, outros comem cereais, já outros ovo frito ou cozido, queijo e/ou presunto. Outro dia, li que na Alemanha, quando se visita um alemão em casa, “o anfitrião determina a hora da visita ir embora já ao convidar”. Fiquei pasmo, pois mesmo depois de mais de duas décadas aqui, nunca fui convidado por ninguém com hora de ir embora de sua casa. O que sei é que tem gente cuidadosa, que teve má experiência com gente que fica a vida toda e não se toca quando ultrapassa os limites (coisa que infelizmente certos brasileiros fazem com frequência!), que então se previne, para evitar que a visita “acampe” dentro de sua casa. Mas isso não é nenhum costume alemão!

A lista de exemplos de afirmações desse tipo seria longa. Vejo coisas assim o tempo todo. No momento a moda é “as coisas que não gosto na Alemanha”. Paro para ver os posts e não raramente me deparo com “frescuras pessoais” sendo confundidas com “choque cultural”.

Não canso de ver posts sobre a Alemanha falando de cerveja, como se a Alemanha se resumisse a isso. Esse é um exemplo que mostra que as pessoas têm uma percepção seletiva, só vendo o que mais convém. Sim, na Alemanha se bebe muita cerveja e aqui há uma variedade grande de marcas e tipos, mas em minhas últimas estadias no Brasil tive uma impressão forte de que o consumo de cerveja (e a preocupação com esse assunto) por lá é bem maior que aqui. Em minha opinião, portanto, o Brasil é mais “o país da cerveja” que a Alemanha. Incompreensível então esse foco na cerveja quando se fala da Alemanha.

Por isso, peço às pessoas que buscam informações sobre a Alemanha que sejam cautelosas com a opinião de quem quer que seja (também com a minha!), que se informem em vários lugares diferentes e procurem formar sua própria opinião. E peço àqueles que escrevem ou falam da Alemanha por aí que tenham mais cuidado. Não precisa parar de fazê-lo, basta se informar melhor, ser mais modesto e maneirar um pouco em suas afirmações absolutas, substituindo o “Na Alemanha é assim…” por um “Minha impressão é a de que…” ou “Minha experiência foi…”. Penso que, no final das contas, todo mundo sai ganhando: quem busca informações tem uma maior transparência, podendo relativizar o que foi dito, e quem oferece as informações não corre o risco de passar pela vergonha de estar difundindo coisa errada.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante.

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2 comentários

  • Gustl, gosto muito do seu blog. Mas minha impressão sobre este artigo foi um pouco polêmica. Por que não escrever mais sobre “Alemanha – muito mais do que cerveja?”. Você escreve muito bem sobre isso em outros artigos, então porque não investir mais em escritos desse tipo, sem criticar outras fontes? Sem apontar erros, mas apontando a sua experiência, que acredito ser rica no seu caso (25 anos é muito tempo!). Entendo o incômodo ao ler informações erradas em outras fontes, mas errar é humano. Se o outro ignora uma parte da realidade, é uma pena, mas todos nós ignoramos alguma coisa, pois não se pode saber tudo. E cada um vai ter uma experiência única, pessoal, ao visitar um país ou ao morar nele. Uma afirmação sua me chamou atenção: quando você disse que “o Brasil é o país da cerveja” só porque lá se consome mais e se preocupam mais com isso. Poxa, baseado só na consumação e preocupação de um produto? E toda a história da cerveja na Alemanha não é relevante pra considerar esse país um país da cerveja mesmo, muito mais do que o Brasil? Os alemães já conheciam essa bebida muito antes do Brasil ser descoberto… Tem muitos fatos pra discutir essa questão. Aliás, pelo título, achei que seu artigo seria sobre isso. É claro que a Alemanha é um país de MUITAS coisas, assim como o Brasil é muito mais do que ” o país do futebol”. Mas quando alguém se expressa de forma simplista, afirmando que um país é isso ou aquilo, para mim é simplesmente uma impressão pessoal daquela pessoa que afirmou isso (de acordo com a história dela, do conhecimento dela). É direito dela, é a visão dela, e se ela expressou assim, é porque pra ela esse fato é uma verdade. Para outros talvez não seja, e isso acontece porque somos diferentes, temos histórias e visões de mundo diferentes. Respeitar a opinião do outro é fundamental, especialmente se as opiniões são divergentes. Por favor, Gustl, não deixe de escrever (adoro seu blog!). Por favor, tente ignorar a ignorância dos outros, e focar mais no que você tem a dizer sobre você! 🙂 Você vai ajudar muito mais apontando o que você sabe do que apontando o que o outro não sabe 😉

    • Não foi nada polêmica, porque ele não falou de modo com certeza absoluta e sim relativamente, isso não foi pra criticar as outras pessoas que erram e sim pra alertar as outras pessoas que muitas vezes generalizam tudo e pensam que isso é uma verdade absoluta, mesmo com muita experiência ou pouca, em ambos os casos muitas vezes, isso gera uma certa “modinha” por parte da nossa população o objetivo disso não é criticar o erro dos outros e sim alerta-las sobre isso, parece até em muitos casos que chega está impregnado na nossa cultura isso de “modinha”