Violência doméstica: toda atenção é pouca

Violência doméstica: toda atenção é pouca

Eu estava na sala vendo um programa na televisão quando o telefone tocou. Como não achei logo o controle remoto para baixar o volume e por não gostar de telefonar com ruídos de fundo, peguei o telefone e saí da sala. Depois da conversa, quando retornei à sala, o programa que eu estava assistindo já havia terminado. Quis desligar a televisão, mas logo começou outro programa, que me deixou curioso porque dizia que era uma história baseada em fatos reais.

Sem saber direito do que tratava a história, comecei a assistir. Uma mulher contava que teria sido vítima de violência doméstica e que o marido a havia amarrado na cama, a torturando e estuprando, batendo nela com um pedaço de pau e causando-lhe queimaduras com cigarros e água quente, proibindo que ela gritasse ou reagisse, sob a ameaça de matar os filhos, que dormiam no andar de cima da casa.

Não é o tipo de coisa que gosto de assistir. Sei que esse tipo de violência existe e é uma realidade enfrentada por muitas famílias nesse mundo, mas não acho que seja bom ficar mostrando isso detalhadamente na TV, já que só me parece servir para satisfazer o voyeurismo de gente de alma perturbada, que gosta de ver a miséria alheia. Quis novamente desligar, mas a mulher disse algo que me deixou encucado: ela disse que o cara tinha sido até então uma boa pessoa, um bom pai e marido e que ficou violento de repente, quando ela disse que queria voltar a trabalhar, pois os filhos já estavam na escola e ela não precisava mais estar em casa durante o dia. Não acreditei no que ela dizia, pois não creio que alguém fica violento da noite para o dia. Se esse homem foi capaz de maltratar a mulher como maltratou, chegando até ao ponto de ameaçar matar os filhos, pensei que ele com certeza já havia mostrado sua tendência agressiva em outras ocasiões. Fiquei curioso e, atiçado pela curiosidade, querendo entender melhor a história, resolvi assistir o programa até o fim.

A maior parte do tempo foi dedicada à reprodução detalhada das torturas praticadas pelo marido e do sofrimento da mulher. Somente no final, depois dela ter conseguido fugir e pedir ajuda a uma vizinha, que chamou a polícia, é que pude constatar que eu estava certo em minha desconfiança. Quando a polícia chegou e foi à casa do casal para prender o marido, ele torceu a história, contando aos policiais que a mulher tinha problemas psíquicos e que ela mesma havia se ferido. Mostraram então uma entrevista com um dos policiais, que contou que não acreditou na versão do marido, pois ele já tinha passagem pela polícia por diversas ocorrências de violência. Ele tinha tido várias brigas na vizinhança, chegando a espancar um vizinho por causa de uma divergência de opinião e a ameaçar crianças com uma arma porque brincavam e faziam barulho na rua.

Pois bem, minha introdução foi longa, mas cheguei onde quero chegar: violência doméstica não é algo que surge de repente, um marido violento não fica violento de uma hora para outra. Os sinais de sua agressividade já podem ser observados cedo, contanto que se tenha a coragem de ver as coisas como são e não como se gostaria que fosse.

Antes de prosseguir, gostaria de evitar um mal-entendido e esclarecer que de forma alguma tenho a intenção de culpar as vítimas de violência doméstica (normalmente mulheres e crianças) por não registrarem o perigo antes da coisa acontecer. Não, não se pode culpá-las, pois a coisa é complexa: muitas vezes, a mulher depende financeiramente do marido, a paixão inicial enturva a visão da realidade e não é fácil para uma mulher admitir que vive com um monstro dentro de casa – para os filhos é ainda mais difícil admitir que o esse monstro seja o próprio pai! O que quero é alertar e apelar para que se perca a ingenuidade, reagindo e se afastando do malfeitor assim que ele expressar os primeiros sinais de violência.

Eu mesmo já vi muitas mulheres explicando e desculpando os desvios do marido/namorado, justificando esse ou aquele comportamento violento com o estresse que ele teria no trabalho, com sua infância difícil ou coisas parecidas. Muitas vezes, essas mulheres até que registram a violência do homem em relação a outras pessoas, mas acreditam que ele jamais faria isso com a própria família, como no exemplo do programa de televisão (o marido já havia sido violento com várias pessoas, mas ainda assim a mulher ficou surpresa quando ela mesma foi vítima de sua agressividade).

Uma pessoa violenta é sempre violenta (pelo menos em potencial). Quando sua violência não se expressa, ela continua existindo, mesmo que de forma latente. Se essa pessoa é violenta com uns, mas não com outros, isso só significa que com esses outros as coisas andam como ela espera.

Pessoas violentas têm um baixo limite de frustração. Elas explodem assim que as coisas não são como elas querem. Enquanto a vida da família corresponder àquilo que o homem quer, ele, de fato, não será violento dentro de casa. Mas basta algo mudar ou sair de seu controle para que a agressividade latente venha à tona.

Por isso, é muito importante reagir logo, já nas primeiras manifestações de agressão. Se, por exemplo, uma mulher acaba de conhecer um homem e percebe que ele é um “galo de briga”, que tem dificuldades de resolver seus conflitos na rua de forma adulta e civilizada, partindo logo para a agressão física, essa mulher deveria ter muito cuidado, pois seria só uma questão de tempo até que surjam conflitos também no relacionamento. Se ele não consegue resolver pacificamente conflitos insignificantes na rua, ele com certeza conseguirá isso ainda menos em conflitos na relação, que são normalmente bastante carregados emocionalmente.

Também pequenos deslizes do homem no relacionamento são motivos para que se fique atento. Um homem que ameaça ou levanta a mão para a mulher ou para os filhos é uma bomba armada que pode explodir a qualquer momento. Aqui é importantíssimo não ficar relativizando suas atitudes e classificando uma ou outra pequena agressão sua como “não muito grave”. Violência, por menor que seja, sempre é grave! E pode ter consequências sérias mais tarde. Nada neste mundo justifica o uso de violência por uma pessoa (fisicamente) mais forte contra pessoas mais fracas. Tolerar isso é abrir portas para um agravamento do problema e se expor a um risco sério.

É claro que a cautela que devemos ter não vale somente para a violência física, mas também para a agressão emocional/psíquica, que muitas vezes é até pior, pois é mais sutil, mais disfarçada e mais difícil de se tornar evidente. Se uma mulher chega a um hospital com o rosto sangrando, por exemplo, é bem provável que alguém considere logo a possibilidade dela ter sido vítima de violência doméstica. Mas se ela chega com uma depressão, provavelmente ninguém pensará com a mesma rapidez que ela poderia estar sendo vítima do terror psíquico do marido.

Não precisamos ficar paranoicos e achar que todo homem é potencialmente agressivo, pois isso não é assim. Acredito que a maioria dos homens tem um bom controle de si e é capaz de respeitar limites que jamais podem ser ultrapassados. Entretanto, devemos ficar atentos, não somente mulheres em relacionamentos difíceis, mas todos nós. Devemos reagir quando percebemos que alguém que conhecemos se encontra em uma situação de violência doméstica ou se percebermos o perigo da coisa chegar a esse ponto. O que não podemos fazer é nos calar! É claro que não é fácil se intrometer no relacionamento de alguém, mas, na dúvida, é melhor ser cuidadoso demais do que indiferente ou displicente. Quando se trata de violência doméstica, toda atenção é pouca.

Sobre Gustl Rosenkranz 132 Artigos
Blogueiro brasileiro residente em Berlim. Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

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