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Não tenho qualquer simpatia por Trump, pelo contrário, tenho é medo desse narcisista que assumiu o governo da nação mais poderosa do mundo. Não entendo e sei que nunca vou entender como alguém assim pôde ser eleito, acho seu discurso extremamente perigoso e de forma alguma tenho aqui a intenção de defendê-lo.

O que quero abordar é a hipocrisia europeia, que critica a política e as ameaças de Trump, mas, na verdade, já pratica a mesma política há longo tempo. Vejamos alguns pontos na política do novo governo dos EUA classificados como absurdos e abertamente criticados pela Europa, mas que já são medidas concretas no velho continente:

Trump só diz que vai fazer o que a Europa já faz há muito tempo

America first!”, primeiro os Estados Unidos!

Na Europa, tem sido forte a crítica à política protecionista anunciada pelo novo governo americano. De repente, vemos políticos europeus se mostrando preocupados, argumentando que precisamos de mais abertura de mercado e não de protecionismo, o que soa cínico, já que a política econômica da própria União Europeia é extremamente protecionista. Ela pratica o mesmo protecionismo em relação a outros países do mundo, principalmente em relação à África. Países africanos não têm acesso ao mercado europeu, exceto quando se trata de fornecer matéria-prima para o crescimento econômico da Europa. Ao mesmo tempo, a UE subvenciona sua produção agropecuária, tornando seus produtos mais baratos que os produtos africanos e usando acordos comerciais internacionais para fazer com que países da África importem seus produtos, o que acaba totalmente com a produção local. Para piorar, muitos dos produtos exportados pela Europa são restos de produção, como carcaças de galinha, por exemplo, o que os barateia ainda mais. Ou seja, hoje a Europa critica quando Trump diz “America first!“, mas já pratica há décadas a política “Europa first!“.

Muçulmanos  não são bem-vindos

Enquanto o decreto absurdo de Trump causou o maior rebuliço em todo o mundo e gerou muita crítica, inclusive da Europa, falamos pouco dos países europeus que já praticam essa política há muito tempo e fazem isso abertamente: a Polônia e a República Tcheca não negam que não querem muçulmanos por lá, a Hungria já escandalizou por tratar refugiados muçulmanos pior que bichos e sabemos que a xenofobia foi o principal motor do Brexit.

Hoje, já é difícil para muitos muçulmanos entrarem na Europa legalmente, a depender, claro, de seu país de origem e de sua situação financeira (quem tem dinheiro nunca tem problema para entrar em lugar algum). Alguém da Síria, do Irã, do Iraque, do Paquistão ou do Afeganistão (que não seja rico) dificilmente consegue um visto para entrar na Europa.

Isso sem falar em medidas controversas tomadas pela UE e por países-membros, como a Alemanha, que simplesmente declarou o Afeganistão, apesar de terror e guerra, como país seguro para poder deportar mais facilmente pessoas vindas desse país. Isso mostra como a Europa, como Trump diz que quer fazer, simplesmente tenta se livrar de refugiados (muçulmanos), mesmo que isso signifique enviá-los de volta para o meio da bagunça que ela, a Europa, ajudou a criar, sabendo do grande risco dessa pessoa não sobreviver por muito tempo.  Isso é imoral e ilegal, já que fere tratados e convenções internacionais, também de direitos humanos, e fere também a constituição alemã, que garante que a proteção da dignidade humana tem que vir sempre em primeiro lugar.

Muitos países europeus estão deixando bem claro que refugiados muçulmanos não são bem-vindos. Tirando a Itália e a Grécia, que recebem a maior parte, e a Alemanha, a Suécia e a Áustria, que receberam muita gente, a disposição na Europa de dar asilo a muçulmanos que fogem de guerra e terror é bem baixa. Interessante é que os políticos que mais rejeitam, que até falam de invasão, pintando um cenário catastrófico absurdo, são políticos de países com baixíssima percentagem de muçulmanos em sua população, onde se exagera, se cria um clima de medo, tudo isso para tentar mascarar a xenofobia local.

Também aqui a Europa critica Trump por querer fazer algo que ela já faz há muito tempo.

Trump quer construir um muro na fronteira com o México

Muro que está sendo construído entre a Turquia e a Síria
Muro que está sendo construído entre a Turquia e a Síria

Essa, com certeza, é a ideia mais absurda de Trump, tão absurda que me faz questionar sua sanidade mental. E ainda dizer que quem tem que pagar são os mexicanos! Totalmente surreal.

A ideia do muro causou muita indignação mundo afora, também na Europa, com muitos políticos indo para a imprensa para falar dos muros europeus que caíram, dizendo que muros seriam coisas do passado, não falando, entretanto, das cercas e muros do presente. Trump está dizendo que vai construir um muro entre os EUA e o México, mas a Europa já está construindo seu muro entre a Turquia e a Síria sem que ocorra a mesma indignação. O muro europeu está sendo financiado, direta ou indiretamente, pela União Europeia e é tolerado dentro do acordo feito com a Turquia para que essa segure os refugiados por lá, impedindo-os de seguir viagem para a UE – o acordo que colocou a Europa na posição de refém do quase-ditador turco Erdogan. A Turquia segura os refugiados e recebe dinheiro para isso. Para evitar que cheguem ainda mais refugiados, a fronteira está sendo fechada com um muro. Quem ficar de fora que se vire por lá com Assad e os russos ou com o EI.

Aqui mais uma vez: a Europa critica Trump por dizer que vai construir um muro, mas ela já tem o próprio muro, sem falar de diversos outros muros e cercas, como em Ceuta e Melilla, os enclaves espanhóis no norte da África, ou na Hungria, um país que desde o início da crise migratória deixou bem claro o que eles pensam de muçulmanos, ajuda humanitária e solidariedade.

Muro em Melilla
Muro em Melilla, entre a Espanha e Marrocos, mais um muro europeu atual – Foto: www.elconfidencial.com

Trump disse que vai ajudar “seus amigos da Wall Street”

Aqui a crítica foi forte. Teve político europeu dizendo que Trump tinha admitido corrupção publicamente ao dizer que pretende ajudar seus amigos da Wall Street. E achei a crítica certa, só que hipócrita, mais uma vez. Também aqui na Europa a política é feita para beneficiar os “amigos de Frankfurt”, as empresas do Dax, bancos e determinados grupos da sociedade. A indústria automobilística, por exemplo, deita e rola, mente, falcatrua, sem que isso dê em alguma coisa. O escândalo da Volkswagen mostrou bem até onde empresas estão dispostas a ir para aumentar seus lucros. O que aconteceu depois desse escândalo? Nada. Enquanto a Volkswagen teve que pagar multas altíssimas nos Estados Unidos e indenizar os clientes, na Europa, seus carros sujos e também de outras marcas – já que praticamente todas elas enganaram do mesmo jeito – continuam circulando pelas ruas.  O governo alemão sempre defende claramente os interesses de sua indústria automobilística, tanto a nível nacional como europeu. Trump quer ajudar “seus amigos da Wall Street”, enquanto aqui já se ajuda “os amigos de Wolfsburg, Munique ou Stuttgart”. No final das contas, a mesma coisa.

A hipocrisia europeia favorece o surgimento de Trumps

Já disse que nada simpatizo com Trump. E acho que devemos ter cuidado com ele. É bom ter atenção, pois a história nos mostra o que pode acontecer quando se dá muita corda a um louco. Para mim, toda crítica a ele é bem-vinda. O problema é quando a crítica é acompanhada de hipocrisia. Penso que é exatamente essa falta de sinceridade e honestidade de muitos políticos, essa mania que político tem de falar uma coisa e fazer outra, essa falta de compromisso com a verdade que tem feito com que muita gente perca qualquer confiança nos políticos atuais e se tornem presas fáceis para populistas. Em outras palavras, essa política de um peso e duas medidas, essa hipocrisia da Europa, no fundo, favorece o surgimento desse e de outros Trumps por aí.

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