Coisas da Vida Vida no exterior

Reflexão sobre nossas raízes

Porque não é justo cobrar de emigrantes que não se afastem de suas raízes

Não somos árvores para ter raízes. Nossas raízes são uma construção, algo inventado para criar um vínculo emocional com nossa terra, nossa família, nossa cultura, nosso passado, nossas tradições, e é algo que prende. O que temos realmente é uma origem, já que todo mundo nasce em algum canto deste planeta, e quando saímos da terra natal para viver em outros cantos, não são raízes que deixamos, mas sim pedaços de nós (pessoas, lugares, recordações, odores, sons, experiências vividas…), pedaços importantes, mas que não nos prendem, já que eles ficam, mas ao mesmo tempo vão conosco, em nossa memória e em nosso coração, pois quem sai não deixa de amar os seus, sua terra, sua cultura, enfim, sua origem. Mas não temos raízes! Somos livres para ficar parados e somos livres para sair do lugar, uma liberdade que não seria possível se estivéssemos enraizados na terra onde nascemos. Ter raízes significaria ter que ficar plantado em algum lugar, mas seres humanos só ficam plantados se quiserem. E há realmente muitos que preferem enfiar os pés na terra para ficarem ali durante anos ou uma vinda inteira, parados, sem buscar ou mesmo permitir qualquer mudança, o que é legítimo, o que é o direito de cada um, tem gente que é feliz assim. Mas é injusto então que se invente as tais raízes para justificar a letargia e e cobrar isso ou aquilo dos “desenraizados”, daqueles que perceberam que não estão presos à terra, a ninguém, a nada. Já fui acusado de “desprezar minhas raízes” por ter optado por viver em outro país e porque perdi já há muito tempo a ilusão de que o Brasil é um país tropical (isso ele ainda é!) abençoado por Deus (isso ele foi, há mais de 500 anos, antes dos portugueses terem aparecido).

Não acho justo exigir de emigrantes que não se afastem de suas raízes. Quer dizer que alguém que nasce em um determinado canto do Brasil tem que ficar preso a esse lugar, às suas raízes, tanto faz os rumos tomados por sua vida? E, afinal de contas, que raízes são essas? A família? Hmm, é mesmo estranho definir uma família como raiz, pois isso significaria que essa família encontra-se presa à terra, sem poder sair dali, mas isso não é verdade, pois ela poderia se locomover livremente, todos os membros podem ir viver em lugares diferentes, mesmo no exterior e teoricamente, daqui a alguns anos, até em Marte. Isso contradiz o conceito de raiz. E a raiz “cultura”? Que cultura vale para o migrante como raiz: a de quando se saiu do país ou a atual? Acredite: quando eu saí do Brasil, a cultura era bem diferente da cultura de hoje. Então, porque que me cobram fidelidade à cultura atual? Quer dizer que alguém que viajou pelo mundo, conhecendo outras realidades e culturas, vivendo coisas que o enriqueceram, deve ser acusado de trair a raiz cultura brasileira ao achar que algumas coisas em outras culturas são bem melhores? Isso não faz sentido e é por isso que acredito que essa história de nossas raízes só pode ser arte de gente inerte, que não quer sair do lugar, e usa isso para manter o vínculo daqueles que percebem que não estão presos e vão embora, seguindo seu próprio caminho.

Fui acusado de “desprezar minhas raízes” em Salvador e escutei isso por dizer o que pensava, já cansado de ouvir que a Bahia seria um paraíso e que não haveria no mundo lugar melhor para se viver, e isso depois de ter perdido muito tempo em engarrafamentos, sempre com medo de ser assaltado, desconfiado de tudo e todos, depois de ter recebido troco errado várias vezes e de ter pago “taxas de urgência” inoficiais em cartórios, depois de ter que me fazer de desentendido para não pagar propina à polícia rodoviária (o policial dava indiretas de que queria alguma coisa e eu fazia cara de tacho e fingia que não entendia, até que ele cansou e me deixou seguir, pois estavam passando muitos outros carros e e ele estava perdendo tempo e muitas “gorjetas” por minha causa!), sem falar de outros absurdos. Você vê muita coisa desmoronando e depois ainda escuta do povo que está tudo bem, tudo bacana, Sorria, você está na Bahia!, tudo picolé, acarajé, bronzeador, água de coco e pagode, percebendo que o show da vida no País das Maravilhas sempre continua… Por causa de minhas raízes, essas raízes que na verdade não tenho e não quero ter, devo então virar a cabeça, fingindo que não vejo o que estou vendo, reforçando uma ilusão, batendo palmas para o “paraíso” de açúcar, futebol e cerveja, sendo fiel às raízes, mas traindo a mim mesmo? Coisa nenhuma!  Capim tem raiz, pé de laranja tem raiz, jaqueira tem raiz, mas gente não!

Penso que é importante conhecermos e respeitarmos nossas origens, sabermos de onde viemos e sermos gratos por tudo que aprendemos, vivemos e até levamos conosco, mas cientes de que origem não é prisão, não é raiz, não encrava ninguém na terra. É bom quando existe um vínculo saudável de um emigrante com sua origem, mas isso depende das experiências feitas por cada um em sua terra natal. Alguém que sofreu muito, por exemplo, pode optar por se afastar de suas origens, vivendo sua vida e olhando para o futuro, o que seria mais que compreensível. Dizer que essa pessoa tem raízes é dizer que ela está presa e negar seu direito de esquecer. Portanto, quem quiser ter raiz que tenha, seja como árvore, flor, coqueiro ou pé de alface, mas fica a dica para quem ainda não percebeu: ao invés de raízes, o ser humano precisa é de asas, que lhe permitam voar para atingir seus objetivos. Voe, siga seu caminho e liberte-se dessa história de raízes. Ah, sim, e se você reparar bem, verá que a porta da gaiola está aberta. Só basta mesmo bater as as asas e voar. Você é livre. Você não tem raízes 😉

 

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

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