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“Vai seu burro!”, diz um patrão a um empregado na Bahia. Ninguém reage, o empregado abaixa a cabeça e aceita ser chamado de burro e a vida continua, com opressores oprimindo oprimidos, com direitos dos mais fracos sendo pisoteados pelos que se acham mais fortes, já que a força é definida pelo dinheiro no bolso e na conta, em uma realidade dura, na qual pobre é constantemente humilhado, xingado por patrões, desrespeitado pela polícia, desprezado pela sociedade, sem que ninguém se revolte, sem que nada aconteça. Chamar pobre de burro pode! E assim vemos pessoas pobres, homens e mulheres, negros e mulatos, sendo diariamente ofendidas com os mais absurdos adjetivos: burro, lerdo, imbecil, retardado…

“Vai seu negro burro!”, diz um patrão a um empregado na Bahia. Como é que é? Chamou de negro? Aí não dá! É racismo! A ofensa é grande, o reboliço é certo, revolta, polícia, queixa, se vacilar rola até linchamento…

O que descrevo acima não é nenhuma construção de minha cabeça, mas algo que sempre vejo na Bahia, e acho que não acontece só por lá. Isso parece afetar todo o Brasil: tabuizamos a negritude, criamos um problema em torno da palavra “negro”, deslocamos o teor da ofensa, concordamos com pessoas sendo chamadas de burras, mas não aceitamos se são chamadas de negras. Decerto há muito racismo e temos que combatê-lo, mas deveríamos ser mais coerentes. Está errado chamar alguém de “negro burro”, mas também está errado chamar alguém simplesmente de “burro”. E na frase “Vai seu negro burro!”, a ofensa e o desrespeito estão na palavra burro e não na palavra negro. Portanto, deveríamos nos revoltar sempre que alguém trata outra pessoa de forma indigna e não esperar até que essa pessoa inclua a palavra negro para que o “malfeitor” possa ser taxado de racista e punido.

O que vi por lá foi uma forte tensão social. Pessoas de pele mais clara (não falo necessariamente de pessoas brancas – basta ser mulato!) ficavam todas receosas, tentando sempre evitar o uso da palavra negro. E vi pessoas negras que provocavam, que insinuavam racismo em toda e qualquer frase ou comportamento, que usavam a questão racial até como forma de chantagem. Vi um exemplo de um patrão que mandou um empregado embora por nunca trabalhar nas segundas-feiras devido à ressaca do fim de semana. A cena foi triste: o empregado saiu xingando o chefe de racista, insinuando que só havia sido demitido por ser negro. Ou outro exemplo: desde que me entendo por gente, chamar alguém na Bahia de “meu nego” ou “minha nega” sempre foi uma expressão de carinho. Mas vi gente ofendida, se prendendo às palavras, ignorando as intenções, deturpando os fatos e rotulando alguém de racista por ter dito “meu nego” para outra pessoa.

E é assim que hoje, no Dia da Consciência Negra, sinto falta exatamente da consciência, da consciência de que somos todos iguais e de que todos (brancos, pretos, mulatos, amarelos, verdes, azuis…) temos uma obrigação comum de buscar paz social, evitando exageros e abusos, agindo com serenidade e objetividade e não deturpando a realidade. O racismo está encravado profundamente na sociedade brasileira, centenas de anos de escravidão deixaram suas marcas. Se queremos nos curar dessa ferida tão profunda, só conseguiremos isso juntos, em paz, em diálogo, e não com uma pseudoconsciência que só gera tensão social. Devemos combater o racismo de todos os lados, seja racismo de brancos contra negros, de negros contra brancos, de negros e brancos contra mulatos ou mesmo de negros contra negros. Como assim de negros contra negros? Sim, isso é outro fato: vejo uma discriminação da negritude por muitos negros, por gente que ainda hoje prega que cabelo liso é cabelo bom e que cabelo crespo é cabelo ruim e que ainda diz que uma pessoa negra que casa com uma pessoa branca está contribuindo para limpar o sangue da família. Por mais absurdo que pareça, ainda se escuta absurdos desse tipo na Bahia…

Que não me entendam errado! Sou mulato, já senti racismo na própria pele e vejo a discriminação racial como um dos maiores defeitos da humanidade. Não aceito racismo de forma alguma e acho que o Brasil deu um passo importantíssimo quando a Constituição de 1988 tornou racismo crime inafiançável e imprescritível. Sim, isso foi uma coisa boa, mas que não deve de forma alguma ser instrumentalizada como meio de chantagem social. E me desculpem, mas escutar a frase “Vai seu preto burro!” e se ofender pela palavra preto (ou negro) e não pela palavra burro é para mim uma tremenda burrice.

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