Para não dizer que não falei das flores: os alemães e sua relação com as plantas

Para não dizer que não falei das flores: os alemães e sua relação com as plantas

Quando cheguei na Alemanha (o que já faz muito tempo – foi no milênio passado!), uma das coisas que mais me deixaram admirado foi a relação que os alemães têm com as flores (e com plantas, em geral). O clima na Alemanha não é fácil para jardineiros, pois o verão é curto e não é toda planta que sobrevive ao inverno. Ainda assim, mesmo isso significando muito trabalho, os alemães costumam ter muitas plantas em casa e todo ano, na primavera, é comum ver as pessoas plantando e replantando nos jardins, nas varandas, em quase todo lugar.

Venho da Bahia, um lugar realmente abençoado em termos climáticos, onde há muito sol durante todo o ano, nunca faz realmente frio,  onde a terra é fértil e as plantas crescem sem muito esforço, bastando muitas vezes jogar as sementes no chão que a natureza cuida do resto. Talvez por isso, por ser fácil e por não costumarmos valorizar as coisas que temos em abundância, não há por lá essa cultura de plantar e de cuidar de suas plantas com todo esse carinho dos alemães. Sim, também lá há gente que cuida bem das plantas, mas não se pode dizer que isso faça parte da cultura baiana, pelo contrário: o que vi muito foi gente destruindo o que a natureza ou outras pessoas plantavam. Fiquei assustado ao ver que até mesmo árvores gigantescas eram derrubadas e arrancadas como se fossem ervas daninhas. E não, não é meu objetivo aqui falar mal da Bahia. Conto isso para que se entenda melhor porque, entre outras coisas, admiro tanto o “espírito verde” enraizado na cultura alemã.

 

Recordo-me de Karl-Heinz, um senhor que vivia na Westerwald, uma região muito bonita próxima a Koblenz (entre Colônia e Frankfurt), e que infelizmente não vive mais. Visitei-o inúmeras vezes e fiquei perplexo com todo o esforço e o sacrifício de sua parte para plantar não somente flores, mas também frutas, verduras e legumes. No final de janeiro, no auge do inverno, ele já começava a preparar as sementes, a criar suas primeiras mudas, para depois plantá-las na primavera. Com estufas, lâmpadas especiais, terra vegetal e muito, muito carinho pelo que fazia, ele vestia seu avental (e também o dedo?) verde e cuidava de sua cria botânica, plantando de tudo que se possa imaginar: tomate, pimentão, abóbora, cebolinha, salsa, coentro…, além de muitos diferentes tipos de flores, cada flor mais linda que a outra.

Ajudei-o muitas vezes nessa sua tarefa e tenho até hoje muito respeito e admiração pelo zelo e pela ternura que ele investia em tudo isso. E eu entendia porque ele fazia tudo aquilo quando a primavera chegava e depois o verão, com ele me mostrando satisfeito o fruto de seu trabalho: frutas, verduras e legumes grandes e saudáveis, além de uma casa cercada de flores de todas as cores e tamanhos, o que atraía pássaros e outros animais, transmitindo um clima de natureza e paz. Sim, admiro esse homem até hoje, não só ele como todos os alemães que se esforçam tanto para ter um pouco da beleza da natureza por perto, mesmo sabendo que a maioria das plantas não sobreviverá o próximo inverno e precisará ser novamente plantada na primavera seguinte. E ele repetia isso todos os anos, mas sempre com satisfação, sem reclamar, aceitando os caprichos do tempo.

schrebergarten
O “Schrebergarten”, o jardim arrendado

Mas que ninguém pense que somente os alemães que vivem em casas e têm espaço e terra à sua volta fazem isso. Mesmo os que moram em apartamentos e nos “apertamentos” da vida, no meio da cidade, costumam plantar como podem, na varanda ou mesmo dentro de casa, na bancada da janela e onde for possível. Muitos possuem algo que eles chamam de Schrebergarten, que é um pedacinho de terra arrendado, onde têm uma casinha (normalmente de madeira), usando essa área para cultivar e descansar. Aqui em Berlim, por exemplo, há quem aproveite até qualquer pedacinho de terra na rua, entre concreto e asfalto, para fazer seu “jardinzinho” particular.

varanda com flores

Ontem mesmo, fiquei olhando a vizinha, que estava em sua varanda, plantando, trocando terra dos vasos, podando folhas e regando suas plantas com um capricho inspirador.

Também a administração pública não poupa nesse sentido, o que faz com que se veja muitas flores nas ruas, nas praças e nos parques públicos. Faz bem chegar em alguma cidadezinha do interior e ver tudo florido, perfumando e colorindo o mundo à volta após um inverno escuro e cinzento. É quando percebo o quão é fácil mudar a paisagem e a realidade em que vivemos e como as plantas e suas flores podem trazer vida e beleza, alegrando nosso espírito.

Plantar flores é para muitos alemães  muito mais que um hobby. É uma filosofia de vida, algo que está fincado em sua mentalidade, em sua cultura. Gosto disso, pois é bonito e inspira, trazendo a “prima Vera” para dentro de mim 🙂

Se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada faltará. (Cícero)

crocus-flores

Sobre Gustl Rosenkranz 132 Artigos
Blogueiro brasileiro residente em Berlim. Apaixonado por palavras, viciado em escrever sobre a vida e tudo que a toca.

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