Alemanha

Indo à praia na Alemanha. Ops, peraí, que praia?

Praias na Alemanha
Praia na Alemanha pode ser tudo (linda, interessante, deslumbrante...), ela só não tem gosto de praia

cafeRi muito quando escutei um comediante alemão contando sua experiência com o café da Starbucks. Ele disse que foi lá para experimentar e ver se o café deles era mesmo gostoso. Então, ele foi, provou e constatou que o café era uma delícia, realmente muito gostoso, mas que havia um pequeno problema: não tinha gosto de café!

Fiz a mesma experiência com as praias alemãs: elas são lindas, com paisagens magníficas de tirar o fôlego, são limpas e bem cuidadas, mas não têm realmente “sabor” de praia, pelo menos não para mim, que cresci no litoral baiano, sendo temperado com água salgada, areia, água de coco e muito sol.

Bom, areia lá também tem, mas o sol é um problema. O clima costeiro alemão é cheio de caprichos e malcriações, o período de tempo bom é curto e quem vai para a praia aqui nunca deve se esquecer de levar roupa de chuva e frio, independentemente da estação do ano – mesmo no auge do verão o tempo pode mudar de repente!

As praias são cheias de “cestos” (Strandkörbe), que é onde os banhistas literalmente se escondem do vento, que pode ser muito forte e frio.

cestos de praia alemanha
“Cestos de praia” alemanha

Mesmo já sabendo de tudo isso anteriormente, achei que, no final das contas, praia seria praia e fui cheio de gosto para o Mar Báltico (Ostsee), crente que iria matar minhas “saudades marítimas”.  Era verão, o dia estava bastante quente e cheguei todo feliz, fazendo aquilo que qualquer baiano faria na mesma situação: pulei rapidamente e todo prazeroso na água, contente por estar novamente abraçando meu amigo mar. Mas a alegria durou pouco. Kruzifix! Verdammt nochmal! Que água fria da pega! Entrei rápido, mas saí da água com velocidade dupla, batendo os dentes e com “pele de ganso” (Gänsehaut), que é como os alemães chamam a pele arrepiada. E se engana quem pensa que voltei a tentar. O único que gostou daquela água gelada foi meu cachorro, mas ele não é referência, já que é peludo e nem se importa de dormir em cima da neve no inverno.

Praia no Mar Báltico
Praia no Mar Báltico

Quanto ao sal, nem pense que a água é realmente salgada, pois não é. Salobra seria a palavra mais certa. Ou seja, nem sequer sal achei por lá. E nem falo de água de coco. Essa é que não tem mesmo!

Voltei para casa com uma mistura de deslumbre (como disse, as praias são lindas!) e decepção (pois tinha a impressão de ter experimentado uma “praia da Starbucks”). Mas, como a esperança é a última que morre, não demorou muito para que eu tentasse de novo, dessa vez no Mar do Norte (Nordsee), que é bem mais longe daqui. Peguei o carro e caí na estrada, enfrentando um engarrafamento tão grande que parecia que metade da Alemanha havia resolvido ir à praia naquele dia. Mas, francamente, não me importei muito, pois o que é um congestionamento junto à alegria de rever o mar? Dessa vez, eu estava mais otimista, já que o Mar do Norte está mais próximo do Atlântico, meu velho amigo de infância que jamais me decepcionou.

Bem, cheguei lá e fui logo para a água, mas não achei muita água. Eu estava numa região chamada de “Wattenmeer” (em português: mar de Wadden ou mar Frísio), a maré estava baixa e o que tinha era uma zona quilométrica cheia de lama e umas minhoquinhas (Wattenwürmer) que passeavam nela. Tive que caminhar muito até chegar à água, mas tive que voltar correndo, pois a maré já começava a encher e me avisaram que seria perigoso continuar ali, já que a água voltaria rapidamente (escutei depois várias histórias sobre gente que havia morrido afogada por subestimar a rapidez com que a água do mar retorna àquele espaço que é seu). Voltei apressado e, ao chegar em terra firme com os pés todos sujos de lama, resolvi aceitar que praias na Alemanha podem ser tudo (lindas, interessantes, deslumbrantes…) e merecem ser visitadas pelo menos uma vez, mas, como o café do Starbucks, elas só não têm gosto de praia. Hoje, aguardo ansioso minhas férias para poder ir ao “mar de verdade” em algum lugar mais para o sul e, enquanto elas não chegam, me contento com banho de lago aqui em Berlim mesmo, já que, no fundo, não faz muita diferença, tanto que em alemão se usa a mesma palavra para lago e mar, mesmo que uma seja masculina e a outra feminina (der See = o lago; die See = o mar).

Wattenmeer
O Wattenmeer, as “minhocas” e os pés sujos de um “banhista”

Pensei hoje em praia porque fui ao dentista. Na parede, à frente de onde eu estava sentado, havia um painel enorme, com uma linda foto de uma praia nas Maldivas. Suspirei e disse à assistente do “tiradentes” que estava com vontade de ir para a praia. Ela, na maior simpatia e boa vontade, disse-me que fosse então para o Mar Báltico, pois lá haveria praias maravilhosas. Dei um sorriso sem graça e preferi ficar calado, pois não quis destruir as ilusões daquela boa mulher, que deve também gostar do café da Starbucks 🙂

Praia nas Maldivas
Praia nas Maldivas

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

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