Saúde

Homeopatia é só placebo? Sim, e daí?

Sobre uma forma de tratamento que ajuda muita gente e ainda assim é muito criticada

Era dez ou onze da noite quando meu filho acordou chorando muito. Ele chorava sem parar e não demorei para perceber o que se passava, pois ele sempre colocava a mão na boca: nascia seu primeiro dente! Fui ao armário e peguei o remédio que a pediatra havia receitado para esse momento, coloquei em sua boca 5 bolinhas brancas e não demorou muito para que ele parasse de chorar e voltasse a dormir. Repetíamos a dose sempre que percebíamos que os dentes voltavam a incomodar e ele sempre tinha várias horas de sossego.

A homeopatia é um tema que sempre gera uma discussão acirrada entre os que a defendem e os que a criticam. Tudo bem, entendo os dois lados e acredito que ambos têm sua parcela de razão: por um lado, temos que constatar que milhões de pessoas dizem terem sido ajudadas pela homeopatia e acho que seria uma prepotência supor que todas essas pessoas estejam loucas, se deixam enganar ou correm atrás de mera superstição. Por outro lado, acredito que devemos ser críticos e questionar não somente a homeopatia, mas toda e qualquer forma de tratamento, pois há mitos e charlatanaria em todas as áreas, já que o mercado de medicamentos e promessas de cura é lucrativo e existe muito interesse financeiro por trás das coisas. Então, é sempre bom que haja gente crítica que questione tudo isso.

Só acho que qualquer crítica deveria ser refletida e baseada em argumentos fundados e fatos – e fato éque a homeopatia ajuda muita gente. O mesmo vale para quem defende uma coisa, que deveria também argumentar de forma inteligente e coerente, sem fanatismo, sem dogmatismo e sempre com respeito por outras opiniões. Infelizmente, registro que falta esse respeito na discussão sobre o assunto, principalmente por parte dos críticos. Essas pessoas normalmente tentam taxar os defensores do tratamento homeopático de gente lunática, ingênua, supersticiosa e até mesmo burra, ignorando argumentos que fazem sentido e sempre rebatendo com o mesmo contra-argumento: de que tudo que a ciência não comprova não pode ser verdadeiro, como se a ciência soubesse tudo. Deus bem sabe que isso não é assim 😉

Umas das principais críticas contra a homeopatia é que seu efeito seria meramente placebo, como se isso fosse necessariamente um problema, sem que perceba que isso é uma crítica muito maior à medicina convencional, já que essa muitas vezes nem isso consegue. Veja só: muita gente recorre à homeopatia depois de ter passado um verdadeiro martírio, uma história de sofrimento, sem que a alopatia tivesse ajudado. Muitos tentaram de tudo, conheceram tudo quanto é tipo de terapia e tomaram medicamentos comuns, sofreram os efeitos colaterais e perceberam no final que nada daquilo ajudou. Eu sou um bom exemplo disso. Fiquei doente e fui primeiro a um médico alopata, que me passou remédios fortes, verdadeiras bombas químicas, com muitos efeitos colaterais. Mas esses remédios não me ajudaram, nem mesmo como placebo. É claro que tomei os remédios acreditando que iriam ajudar, já que não faria sentido algum tomar medicamento sem acreditar em seus efeitos. Mais tarde, troquei de médico, fui tratado com homeopatia e me curei. Aí vem alguém e critica a homeopatia, dizendo que eu só fui curado porque acreditei na coisa e que minha cura foi, portanto, mero efeito placebo. Então pergunto: e daí? Se foi placebo ou não, no fundo, não me interessa. Como paciente, que sofria com minha enfermidade, fico é grato pela homeopatia, que me ajudou, tanto faz como. E criticar esse suposto efeito placebo deveria levar ao questionamento do porquê da mesma crença no efeito do tratamento não funcionou com os medicamentos comuns. Quem acusa a homeopatia de ser mero efeito placebo deveria reconhecer também que, em certos casos, nem isso a medicina convencional consegue.

Existem alguns argumentos contra essa teoria do efeito placebo. Um deles é a eficácia da homeopatia em crianças e animais, como mostra o exemplo de meu filho no início deste texto. Fato é que a homeopatia funciona em bebês e animais, que nem sabem o que estão tomando e muito menos têm quaisquer expectativas em relação ao medicamento. Os críticos argumentam aqui com a suposição de que os pais dos bebês/os donos dos animais transferem suas expectativas ao paciente, fazendo com que o efeito placebo funcione então por uma espécie de telepatia. Acreditar em cura placebo por telepatia e chamar quem defende a homeopatia de supersticioso faz mesmo sentido? Creio que não. É uma contradição.

Como dito, mesmo que nem sempre concorde com o que dizem os críticos e muito menos com a prepotência com que alguns apresentam seus argumentos, a crítica também é necessária para que reflitamos sobre o sentido do que estamos fazendo ou deixando de fazer. Acho muito válido quando se aponta o perigo do charlatanismo e do fanatismo, que é real, principalmente na medicina alternativa. A homeopatia ajuda, é para mim um método de tratamento inteiramente válido, mas ela tem seus limites. Fico cuidadoso quando escuto/leio gente até mesmo dizendo que a homeopatia pode curar tudo, o que não é verdade.

Não acho que necessitamos dessa confrontação entre as medicinas convencional e alternativa, mas sim da compreensão de que tudo que ajuda o paciente é válido e que as diversas áreas da medicina deveriam se complementar para atingir esse objetivo. Não precisamos de guerra entre a homeopatia e alopatia e de nos decidir por uma ou outra. Seria bom se entendêssemos que podemos ganhar com as duas. E, no final das contas, penso que vale o que minha médica sempre costuma dizer: quem cura tem razão!

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

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