Vida no exterior

Cadê meu presente? – Se foi para o exterior, então agora é rico!

Quem já emigrou conhece, quem ainda vai emigrar vai conhecer: muitos dos que ficam no Brasil acreditam que um emigrante fica automaticamente (e facilmente!) rico ao deixar sua terra natal, principalmente se ele vai para os EUA ou para a Europa. Muitas vezes, as expectativas de quem fica são grandes e os desejos caros. E o emigrante, mesmo sem querer, termina vestindo a carapuça de “rico”, reforçando tal preconceito ao levar muitos presentes para parentes e amigos no Brasil, ao pagar as contas em bares e restaurantes e ao se gabar de seu “vidão” por aqui, sem perceber que está entrando em uma armadilha da qual não dá para sair facilmente. Entenda esse fenômeno e aprenda a se defender contra expectativas exageradas de quem acha que você ficou rico ao mudar para outro país.

Quem já emigrou conhece, quem ainda vai emigrar vai conhecer: muitos dos que ficam no Brasil acreditam que um emigrante fica automaticamente (e facilmente!) rico ao deixar sua terra natal, principalmente se ele vai para os EUA ou para a Europa. Muitas vezes, as expectativas de quem fica são grandes e os desejos caros. E o emigrante, mesmo sem querer, termina vestindo a carapuça de “rico”, reforçando tal preconceito ao levar muitos presentes para parentes e amigos no Brasil, ao pagar as contas em bares e restaurantes e ao se gabar de seu “vidão” por aqui, sem perceber que está entrando em uma armadilha da qual não dá para sair facilmente. Entenda esse fenômeno e aprenda a se defender contra expectativas exageradas de quem acha que você ficou rico ao mudar para outro país.

Recordo-me de minha vinda para a Alemanha. Vim com planos de ficar por um ano (mas até hoje, 24 anos depois, ainda estou por aqui!). Os últimos dias antes de minha viagem para cá foram bastante corridos, com muitas coisas para resolver. No meio desse sufoco, fui a uma festa de despedida organizada por uma comunidade católica, na periferia de Salvador, na qual eu era muito ativo. A festa foi tranquila, as pessoas foram muito simpáticas e tudo correu bem até que, no final, aconteceu algo meio surreal, que me deixou abismado: as pessoas vinham até mim, se despediam, mas algumas vinham com uma lista de coisas que queriam que eu trouxesse da Alemanha quando regressasse ao Brasil. Os pedidos eram os mais variados, alguns esquisitos e caros (!). Lembro-me de um senhor, que eu mal conhecia, que pediu um Rolex, especificando modelo, cor e tudo. Já um homem jovem, de minha idade na época, teve realmente a coragem de me perguntar se seria muito difícil mandar um Mercedes por navio, pois esse seria o carro dos seus sonhos. E isso sem falar dos pedidos menores. Fiquei primeiro sem compreender direito e achei que se tratava de uma brincadeira, só entendendo mais tarde que a coisa era séria, muito séria: algumas pessoas realmente acreditavam que eu, por estar indo para a Alemanha, iria ficar rapidamente rico, muito rico, tão rico que não seria nada demais para mim realizar todos seus desejos materiais.

Com o passar dos anos, em minhas estadias de férias no Brasil, fui percebendo ainda mais claramente como essa ideia do “emigrante rico” está enraizada na cabeça de nosso povo. Ingênuo e com boa vontade, eu fazia questão de levar presentes para a família, mas também para vizinhos e amigos. Como na época o marco alemão valia muito mais que a moeda brasileira (qual era mesmo: cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruz-credo?), eu ainda pagava as contas quando saía com amigos para almoçar, jantar ou simplesmente beber alguma coisa, reforçando ainda mais, sem querer e perceber, esse pensamento deturpado das pessoas.

E isso, que no início parecia algo inofensivo, foi piorando com o tempo. Os presentes, que antes eu levava com prazer e voluntariamente, tornaram-se uma obrigação, pois eu sabia das expectativas. As “coisinhas” que eu levava foram se transformando em “coisonas” e eu me estressava muito com os preparativos de minha viagem, correndo atrás das coisas mais absurdas desejadas por um ou outro. E isso não era tudo: algumas pessoas, com aperto financeiro, aguardavam ansiosas por minha chegada, pois acreditavam que eu, rico (!), resolveria seus problemas, “emprestando” dinheiro ou pagando suas dívidas. A coisa foi chegando ao ponto de muita gente nem mais perguntar como eu estava, como era minha vida por aqui: elas já chegavam reclamando da vida, contando naturalmente com minha ajuda. E não adiantava dizer que a vida aqui também não é fácil, que também aqui se tem que trabalhar duro para ganhar o pão nosso de cada dia, que eu não era rico. Não, isso não entrava na cabeça das pessoas, que insistiam em crer que o dinheiro aqui anda espalhado pela rua, que basta sair, se abaixar e catar a quantia necessária…

Quando percebi que a coisa não tinha solução, que eu jamais conseguiria saciar tais desejos das pessoas e que elas jamais veriam a realidade como ela é verdadeiramente, resolvi dar um corte, deixei de levar presentes e comecei a fazer questão de contar como se vive realmente por aqui, apontando as dificuldades, mas fiz então outra experiência que me deixou ainda mais assustado: houve quem reagiu com hostilidade, me acusando de ganância e egoísmo, de ser alguém que só pensava em mim mesmo, que se negava a ajudar “os pobres” conterrâneos, que viviam em um Brasil miserável, enquanto eu vivia no maior luxo na Alemanha. E se alguém pensa que tal reação veio somente de pessoas de baixa renda e formação escolar fraca, está muitissimo enganado: sofri acusações também (e até mais!) de pessoas bem formadas e bem empregadas, algumas ganhando bem mais do que eu! Lembro-me de um amigo que tem um cargo alto no governo baiano, que ganha um salário muito maior que o meu, mas que até hoje reclama por eu nunca ter pago sua passagem para que ele pudesse vir passear na Europa.

Achei no início que era um problema meu e das pessoas que conhecia, mas, com o passar do tempo, vi que isso afeta também outros brasileiros (e também outros latino-americanos). Ainda na semana passada, por exemplo, estava conversando com uma conhecida brasileira que vive em Berlim e ganha a vida por aqui fazendo faxinas e trabalhando duro. Ela estava desesperada, tentando conseguir um empréstimo, pois seu irmão pedira a ela a irrisória quantia de 15 mil euros para comprar um carro. Ao invés de dizer a ele que não possui tanto dinheiro, ela, que estava de viagem marcada para o Brasil e já tinha raspado literalmente todo seu dinheiro para pagar as passagens dela e da filha e para comprar diversos presentes para parentes e amigos, estava disposta a se endividar para satisfazer o desejo do irmão. Aqui percebi mais uma vez que os próprios emigrantes parecem gostar da imagem de “rico” quando estão no Brasil e ainda alimentam tais expectativas das pessoas, que têm uma imagem completamente errada de como é a vida de um brasileiro no exterior.

Foi por isso que resolvi escrever este texto, na esperança de poder talvez ajudar um ou outro a não passar pela mesma situação. E se você também é vítima das expectativas e desejos daqueles que lá ficaram, digo-lhe o mesmo que disse a essa conhecida que queria tomar um empréstimo para o carro do irmão: deixe de ser besta! Você jamais conseguirá satisfazer o que as pessoas querem, pois elas vão querer sempre mais. Hoje um celular, amanhã uma máquina fotográfica, depois um iPad e assim por diante. E o pior de tudo: ninguém jamais vai valorizar seus esforços, pois, para eles, tudo isso custa muito pouco por aqui e, por você ser rico, é natural que você atenda seus desejos, por mais absurdos e egoístas que sejam. E se você gostar de ser visto como “rico”, tentando manter essa fachada, confundindo o interesse das pessoas com amor e admiração, não vai demorar muito para você se quebrar financeiramente, sem que ninguém realmente reconheça o que você fez.

Assim, gostaria de dar algumas dicas, que talvez ajudem a evitar que você caia nessa armadilha:

  • Sim, leve presentes, mas somente para as pessoas mais próximas e que realmente gostam de você (independente de você levar presentinhos ou não). Carinho não se compra com presentes. Ou é verdadeiro ou não é carinho!
  • Não aceite a carapuça de “rico”, deixe claro que você trabalha duro para ganhar a vida e tenha cuidado com desejos exagerados de quem quer que seja. Tenha cuidado com a tentação de querer se sentir “rico”, por mais agradável que isso seja para você, pois, no final, essa tentação (=ilusão) sai cara.
  • Quando sair com parentes ou amigos, nunca assuma a conta sozinho, não pague pelo consumo excessivo de ninguém e deixe claro que você não é nem rico e nem besta.
  • Se alguém lhe procurar para pedir dinheiro, ao invés de ficar desconcertado e sem saber o que dizer, diga a ele que você também está apertado financeiramente e que estava até pensando em pedir dinheiro emprestado a ele.
  • Tenha cuidado com aqueles que lhe procuram só para pedir alguma coisa. Você percebe facilmente que há algo de errado se esse alguém, que ficou meses ou anos sem lhe ver, não mostrar nenhum interesse real em saber como você está e for relativamente direto ao assunto. Mas tenha cuidado também com quem não pede nada diretamente, mas vem reclamando o tempo todo de como sua própria vida está difícil, também sem se interessar realmente por você. Esses “reclamadores da vida” são até piores que os diretos, pois eles apostam em chantagem emocional.

E se alguém lhe chamar de egoísta, dizendo que você é “rico”, pois vive no exterior, onde dinheiro chove na rua, ofereça a ele seu sofá em sua casa aqui e diga que ele também pode vir catar dinheiro na rua junto com você. Duvido que ele queira 😉

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

3 comentários

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  • Vocês tem experiência quando ao morar no exterior os brasileiros querem fazer a nossa casa de hotel? Eu estou começando a receber perguntas do tipo…quero te visitar por uns dias e vou com dois amigos, tem problema?

    • Olhe, Juvenal, infelizmente isso é muito comum entre brasileiros no exterior. É um comportamento que não entendo e não aceito. E sei de muita gente que abriu as portas e se arrependeu. Eu recebo amigos, gente próxima, mas não quem eu não conheço ou só conheço superficialmente.

  • Muito bom seu texto, Gustl (eh esse mesmo seu nome?)!
    Já vivi situacoes semelhantes.
    Parece que nossos conterraneos sao iguais, so mudam de endereco.
    E nem precisa estar fora do Brasil pra vivenciar essa experiencia.
    Ainda quando morava no Rio era a mesma coisa (nasci em Minas).
    Acho que as pessoas pensam que na cidade grande ou noutro pais todo mundo encontra, como voce disse, dinheiro na rua.
    Essa coisa de (des)valorizacao do esforco e totalmente verdadeira.
    Muitos dos meus presenteados nem dizem um simples agradecimento e acham que eh minha obrigacao levar alguma coisa daqui.
    Engracado que o inverso nao ocorre.
    Nao tenho lembranca de muitos cuidados (aqui me referindo a pequenos presentes) quando chego no Brasil.
    Acho que de um modo geral nao mais valorizamos o que as pessoas sao.
    Todo mundo so quer saber do ter.