Sociedade

Atentado em feira de Natal em Berlim, PRIMARK e vida em outros planetas

Não é necessário que venha ninguém de fora para nos destruir. Nós mesmos já estamos fazendo isso direitinho.

Ontem, antes de escutar a notícia de que havia ocorrido algo em Berlim, assisti na televisão uma documentação científica sobre a possibilidade de haver vida em outro(s) planeta(s). A documentação foi, por um lado, bastante informativa, mas, por outro, também repetitiva e um pouco dramática, mostrando a humanidade como um bando de coitadinhos solitários no universo, que precisaria encontrar outras formas INTELIGENTES E CIVILIZADAS de vida como a nossa. Foi aí que engasguei. Inteligentes e civilizados? Quem? Nós? Os homens? Os terrestres? Sei não…

Perguntei-me se nosso planeta não seria suficiente e se precisamos realmente expandir nossas atividades (auto)destrutivas pelo espaço, depredando, explorando outros astros e estrelas e acabando com eles. Já não basta tudo isso que extinguimos diariamente na Terra?

É engraçado como os extraterrestres normalmente aparecem em filmes de ficção como maus, agressivos, famintos de poder, que querem destruir nosso planeta. Ridículo. Não precisamos dessa fantasia. Isso para mim é tentar mostrar os humanos como vítimas, mas, na verdade, somos os malfeitores. Não é necessário que venha ninguém de fora para nos destruir. Nós mesmos já estamos fazendo isso direitinho. E agora até tentamos expandir nossa maldade pelo universo afora.

Quando vi a notícia de que um caminhão invadira uma feira de Natal aqui em Berlim e que várias pessoas teriam morrido, fiquei assustado, preocupado, verifiquei se os meus estavam bem e tentei entender o que havia acontecido. Mas vi também aqui muita dramatização! Apesar de ainda não saberem praticamente nada do ocorrido, as emissoras de TV transmitiam assim mesmo ao vivo, sem pausa, com entrevistas e mais entrevistas, com especialistas saindo de tudo quanto é buraco para explicar tão cheios de propriedade que ainda não havia nada para explicar, com todo mundo dizendo que temos que ter cuidado com especulações, mas especulando… Agora mesmo, horas depois do ocorrido, eles continuam na TV, falando, falando, falando, enchendo linguiça de vento, só para dizer, em resumo, que ainda se sabe pouco. Surreal!

Sempre que ocorre (ou se suspeita que ocorreu) um atentado terrorista, escuto a mesma coisa de repórteres, políticos, especialistas e de qualquer um que se ache no direito de dar palpites. Eles sempre dizem que “não devemos mudar nosso modo de viver, pois seria isso exatamente o que os terroristas querem”. Eles sempre repetem que devemos continuar vivendo nossas vidas como sempre vivemos, sem permitir que o terrorismo prive nossa liberdade, etc., etc., etc.

É claro que não devemos apoiar terroristas e “jogar o jogo deles”, mas, ao mesmo tempo, discordo de que devemos continuar vivendo como sempre vivemos. Seria bom se um atentado ocorrido servisse exatamente para isso, para nos levar a refletir sobre nosso modo de viver, percebendo o entrelaçamento das coisas e reconhecendo que terror, pobreza, violência, guerras, injustiças e essas tantas coisas ruins que temos no mundo têm muito a ver exatamente com a forma como vivemos.

Deveríamos refletir, questionar e talvez mudar muitas coisas, a começar por nossa percepção seletiva, pois costumamos filtrar as informações da forma mais conveniente, nos revoltando quando convém e nos solidarizando somente com aqueles que achamos dignos. É claro que o ocorrido em Berlim é trágico e triste e é algo que não deveria ocorrer jamais, mas o mesmo vale para todos os atentados que ocorrem diariamente mundo afora sem que nos interessemos, sem que nos revoltemos, sem que fiquemos indignados, já que nosso interesse é seletivo, nossa revolta é seletiva, nossa indignação é seletiva…

Precisaríamos refletir sobre nossa hipocrisia, que nos leva a discursar algo, mas viver de outro jeito. As palavras ficaram rasas, perderam seu sentido verdadeiro e as vemos sendo utilizadas de uma forma mesquinha, egoísta, visando (quase sempre, direta ou indiretamente) o próprio benefício. Falamos de tantas coisas nobres e bonitas, mas vivemos, no fundo, de forma mesquinha e feia. Somos até capazes de ficar revoltados quando lemos, vemos e/ou escutamos que ainda há muito trabalho escravo neste mundo, mas, em seguida, corremos para aproveitar as pechinchas da PRIMARK ou de outros “gabinetes do horror” por aí. Somos capazes de nos revoltar quando escutamos que o clima está aquecendo, mas, passada a revolta (o que normalmente ocorre rapidamente), sentamos no carro e dirigimos para dar uma volta, poluindo o planeta ainda mais (muitas vezes por achar que andar de ônibus ou metrô seria coisa de pobre).

Eu poderia dar muitos exemplos de nossa postura contraditória, incoerente, de nossa hipocrisia, de como transformamos nosso mundo em uma realidade de “faz de conta”, sim, onde só fazemos de conta, onde muita coisa é show, fachada, enfeite, adorno, palavras sem consistência, atitudes sem consequência, mas não acho que precisamos de mais exemplos. Penso que qualquer um que pare por um segundo e reflita, saberá muito bem do que estou falando, já que falo de coisas que estão aí, que qualquer um pode ver, se quiser.

Na documentação sobre a vida no universo, um astrônomo disse que ele acredita que há vida em outros planetas. Ele estaria convicto disso. E disse ainda que espera que encontremos em breve seres mais inteligentes que nós, realmente superiores, para que baixemos nossa crista e percebamos que não estamos com essa bola toda, que não somos tão inteligentes e civilizados como supomos e que não somos somente mestres da criação, mais também da destruição. Eu espero o mesmo. Talvez um “puxão de orelha” de fora ajudasse, já que as “cacetadas” que estamos dando em nós mesmos parecem não adiantar.

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

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