Coisas da Vida

Amores de longe

Sobre relacionamentos de quem vive distante

Imagine só você conhecendo alguém, o achando interessante e se apaixonando. Se a paixão for recíproca, é natural que o casal só queira uma coisa: estar junto do outro. Pois bem, até aí nada demais. Todos conhecemos essa situação. Mas agora imagine a mesma situação, só que dessa vez com a pessoa amada vindo de fora, estando só de passagem, indo embora um dia. E agora, como fazer para ficarem juntos?

Qualquer relacionamento amoroso é algo complexo, já que todo ser humano é complexo. Um relacionamento precisa do contato real entre os dois, para que se descubram, para que se conheçam, para que possam saber se realmente se querem e para que o relacionamento tenha mesmo uma chance.

Há casais que vivem a maior parte do tempo sem se ver, sem se tocar, sem se sentir. É claro que o mundo moderno oferece hoje muitas opções boas (e baratas!) de contato, permitindo que nos falemos ou escrevamos diariamente ou mesmo várias vezes por dia. Entretanto, por maiores que sejam os benefícios de toda essa tecnologia, uma conversa, por exemplo, via Skype, jamais substituirá um encontro pessoal.

Então, um casal que se conheceu, se apaixonou, mas terminou se separando fisicamente por um dos dois ter que ir embora: o que fazer? Manter um relacionamento à distância? Ou um dos dois mudará para mais próximo do outro? Mas como largar tudo, se afastar da família e dos amigos, largar o emprego ou os estudos, largar a vida atual para ir começar em outro lugar, em outra cidade, em outro estado, em outro país ou mesmo em outro continente, por causa de alguém de quem gosta muito, mas que, no fundo, mal conhece? Mas como ficar se a paixão é forte e a saudade maltrata? Enfim, o que fazer?

Pois bem, a seguir gostaria de colocar como vejo a coisa. Repito que qualquer relacionamento amoroso é algo complexo, mas um relacionamento à distância é mais complexo ainda, pois:

– a distância faz com que a fase da paixão e do “se conhecer melhor” seja prolongada

No início do relacionamento, a curiosidade e o interesse pelo outro é enorme e isso é importante para que se conheçam. Quanto mais intenso o contato, mas rápido eles se conhecerão. Um contato mais escasso poderia, por exemplo, fazer durar mais alguma eventual incerteza (mesmo que inconsciente) se o outro seria realmente a pessoa certa para um relacionamento. E também prolonga a fase da paixão, o que pode parecer bom, mas não é tanto, já que a paixão tem a função de aproximar duas pessoas, mas sozinha ela não é base para um relacionamento mais longo (para sempre?). É necessário que o casal passe dessa fase da paixão para a fase do amor, mas isso pressupõe que os dois se conheçam bem, já que só quem conhece o outro bem pode realmente aceitá-lo como é, que é uma das principais características do amor. Conhecer o outro já é difícil quando se cresce junto. Agora imagine conhecer alguém que está geograficamente muito distante de você…

– a distância aumenta o perigo de idealização

Principalmente no início, no auge da paixão, tendemos a idealizar o outro e o relacionamento, enfeitando e relativizando as coisas. Essa idealização é normal e vai se amenizando à medida que se conhece o outro melhor. Mas como conhecer o outro é mais difícil e mais demorado quando ele está longe, aumenta o risco de idealização, não só da pessoa, mas da forma como ela vive, do lugar onde ela mora (caso ainda não se tenha ido lá) e de tudo mais.

– a distância aumenta o perigo de ilusão

Repare que diferencio idealização de ilusão. Enquanto acho normal a idealização do parceiro e do relacionamento, penso que a ilusão é bem mais perigosa, não deveria fazer parte de um relacionamento e mostra que estamos entrando numa relação amorosa com uma enorme ingenuidade, criando uma realidade artificial e/ou se negando a ver a realidade verdadeira, com projeções, com fantasias, com delírios, mas sem qualquer sensatez. Quando falo de ilusão, me refiro, por exemplo, à mulher que deseja ter filhos com um homem, que já é pai, que teve filhos com outras mulheres, mas nunca cuidou de sua cria, achando que dessa vez será diferente, que dessa vez ele irá ser um bom pai e que dos filhos dela ele irá cuidar como deveria. Ou então quando o homem de idade avançada recebe uma carta da namorada jovem, que mais uma vez pede dinheiro, mas ele mesmo assim interpreta essa carta como uma expressão de amor. Às vezes, nos iludimos porque somos iludidos, porque o outro nos enrola, nos manipula, mas, de uma forma ou de outra, a ilusão sempre só acontece porque nós a permitimos. São nossos medos (de ficarmos sós?) e nossas carências que nos fazem nessa fase ver somente o que queremos e acreditar mesmo naquilo que, no fundo, sabemos que não é verdadeiro. Creio que é lógico concluir que o perigo de se iludir ou ser iludido é bem maior quando se está com alguém que vem de longe e está longe, que a distância aumenta o perigo de ilusão, já que metade da realidade está então igualmente longe.

– os dois mudam e podem se afastar

Cada um dos dois, apesar da saudade da pessoa amada, continua vivendo sua vida e traçando seu caminho. Quando a distância é grande e o contato físico é escasso por muito tempo, o casal termina fazendo experiências (muito) diferentes de vida. Todos nós sabemos que nossas experiências marcam e contribuem muito para nosso crescimento, podendo provocar mudanças em nosso modo de ser. Claro que não necessariamente, mas um casal que se vê pouco pode terminar se afastando por caminharem em sentidos diferentes, perdendo assim coisas que tinham em comum.

– a distância irá exigir que pelo menos um dos dois abandone tudo, caso resolvam ficar juntos

E é aqui que o relacionamento passa pela primeira prova de consistência, pois seria importante que ambos estivessem dispostos a dar esse passo. Quando um dos dois já deixa claro que quer o relacionamento, mas só se for em sua cidade, em seu estado, em seu país, praticamente impondo ao outro que se mude, isso já mostra um desequilíbrio sério. Você largaria tudo para estar com alguém que lhe tocou profundamente? Ótimo, pois isso mostra que seu interesse na pessoa é forte e real, mas o relacionamento já começaria “torto” se esse alguém não estivesse disposto a fazer o mesmo, já que isso mostraria que se interesse é menor. Penso que não existe igualdade num relacionamento, pois sempre haverá diferenças entre as pessoas que o formam, já que cada um de nós tem seu próprio jeito, suas próprias capacidades e suas necessidades individuais. Não creio que essa igualdade seja possível, não pelo menos o tempo todo. Porém, penso que há alguns pontos básicos, onde essa igualdade é obrigatória para um bom relacionamento. Tem que haver uma paridade em quesitos como respeito, interesse pelo outro e engajamento pelo relacionamento. Se alguém espera que você largue tudo para viver com ele, mas nem cogita que poderia ser ao contrário, esse alguém não lhe respeita, esse alguém mostra um menor interesse pelo relacionamento e seu engajamento deixa a desejar. Eu largaria tudo para estar com a “mulher de minha vida”, mas somente se ela estivesse disposta a fazer o mesmo. Somente depois disso esclarecido é que o casal deveria ver então qual das opções disponíveis seria a melhor opção para os dois.

– as diferenças culturais podem ser um problema sério

A primeira dificuldade será a de conhecer, aceitar e respeitar a cultura do outro. Repare só que diferenças culturais já existem entre pessoas do mesmo lugar, do mesmo país, da mesma cidade e não somente entre pessoas que vivem distantes uma da outra – eu sempre digo que cada família tem sua própria cultura e que duas crianças, vizinhas uma da outra, podem crescer em meios culturais bastante diferentes. Mas pessoas do mesmo lugar terão culturalmente mais denominadores comuns, que podem facilitar a relacão. Quem imagina que lidar com essas diferenças entre duas culturas é coisa fácil, está enganado. Uma mulher brasileira, por exemplo, ficará assustada com o comportamento do namorado alemão no dia em que ele assoar o nariz na mesa, na frente de todo mundo (algo muito comum na Alemanha) – esse exemplo talvez pareça uma coisinha insignificante, mas não podemos ignorar que essas “coisinhas” vão se somando. Mas não é preciso que a “paixão de sua vida” venha de outro país. Já basta que venha de uma região de seu próprio país que tenha costumes muito diferentes dos seus. Já vejo diferenças marcantes entre catarinenses ou paranaenses e baianos ou pernambucanos, por exemplo. Mas, de toda forma, fica claro: quanto maiores as diferenças culturais entre o casal, maiores serão as dificuldades de compreensão e aceitação da cultura do outro.

Já a outra dificuldade que as diferenças culturais trazem é o fato de nem sempre ser fácil distinguir o que é coisa da cultura e o que é coisa da personalidade e do caráter do outro. Um exemplo: conheci uma vez uma mulher alemã que se casou com um brasileiro. O sujeito era infiel e traiu a mulher várias vezes. A mulher um dia se cansou de ser traída e se separou, mas, apesar de seu grande sofrimento, demorou muito até que ela tomasse tal decisão. Quando perguntei porque ela aceitou isso por tanto tempo, ela respondeu que tinha na cabeça que homens latinos normalmente não seriam fiéis, interpretou o comportamento do marido como uma diferença cultural e tentou aceitar e só depois de muito tempo é que percebeu que era um problema de caráter e não de cultura. Então, se você estiver em um relacionamento com alguém que venha de um meio cultural muito diferente do seu, tenha cuidado para não terminar usando as diferenças culturais como desculpa para tudo, para qualquer comportamento do outro. Bom caráter não depende de cultura, respeito também não.

E então, o que fazer diante disso tudo? O que fazer se o outro vem de outro lugar, talvez de outro país e está longe? Bom, em primeiro lugar, eu recomendaria que o casal tente passar o maior tempo possível junto, pois essa é, sem dúvida, a melhor maneira de se conhecer. A depender da distância, esse “passar mais tempo junto” pode não ser fácil de se realizar, inclusive porque viajar para lá e para cá às vezes fica bem caro. Mas é necessário tentar, pois a falta de contato pessoal pode ser veneno para qualquer relacionamento. E aqui também é importante que ambos estejam dispostos a enfrentar o caminho para visitar o outro.

Outra recomendação seria jamais largar tudo de uma vez para ir ficar com alguém que ainda conhece pouco, por maior que seja a paixão. Dê tempo à coisa, observe bem o relacionamento e tente conhecer o outro da melhor forma possível, descobrindo como é sua relação com sua própria família, com os amigos, o que faz no tempo livre, quais seus hobbys, o que ele pensa sobre determinadas coisas… Sim, observe o relacionamento, tendo cuidado com a “cegueira” causada pela paixão. Aliás, isso é algo que recomendo para qualquer relacionamento e não somente para quem vive distante, mas penso que quem ama alguém de longe deveria ter um cuidado maior, já que o relacionamento traz maiores “complicações”.

Seja também aberto, tentando conhecer bem a cultura do outro (e aprender também seu idioma materno – caso ele venha de outro país), pois conhecer a cultura do parceiro ajudará a entendê-lo melhor e a diferenciar nele o que é cultural e o que é individual. Mas não basta conhecer a cultura. Se você quer esse relacionamento, você terá também que aceitá-la e respeitá-la, já que isso é importante para que você aprenda a aceitar e respeitar também a pessoa. Não faça o erro de querer impor sua cultura ao outro e busque, junto com ele, um meio termo, uma forma de convivência que permita aos dois serem quem são sem sufocar a cultura alheia. E é claro que aqui também vale: isso tem que ser recíproco.

Sim, talvez você se encontre numa situação assim, com seu amor “do outro lado do mundo”. E então, o que fazer? Essa pergunta só você mesmo pode responder. Reflita, veja os prós e contras e veja qual o melhor caminho para ficar próximo à pessoa amada. Olhe dentro de você e se pergunte se vale a pena. Se valer, vá fundo e, por maior que possam ser as dificuldades, nunca esqueça de ver o lado positivo: você está apaixonado(a), mesmo que por alguém que vem de longe! Como acho que estar apaixonado é algo magnífico, então, em primeiro lugar, fico feliz por você. E quanto ao outro morar bem longe de você, lhe desejo coragem, serenidade, sensatez, abertura e muita sorte: coragem de pular na água e se molhar, de enfrentar obstáculos para estar com a pessoa amada, de dar um passo “além da própria sombra”, mas agindo com serenidade, por maior que seja a paixão, sem se precipitar e sem destruir nada precioso por causa de um passo impensado, ou seja, aja com sensatez e com abertura suficiente para viver as coisas boas que a vida lhe trará nesse relacionamento e para perceber que um amor de longe pode lhe levar bem longe, e, acima de tudo, lhe desejo muita sorte, a sorte que precisamos para que um amor dure muito, muito tempo. E quem sabe não é para sempre…?  😉

Curta minha página no Facebook para acompanhar minhas publicações.

Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

Comentar

Clique aqui para escrever um comentário