Sociedade

A mentira tem pernas longas

Sobre as mentiras que permitimos que se espalhem pelo mundo como se fossem verdades

Todos nós conhecemos o ditado que diz que mentira tem pernas curtas. Eu mesmo cresci acreditando nisso. Mas o que vejo hoje, na era da internet, prova o contrário: mentiras são jogadas em redes sociais, se propagam como se fosse fogo em uma floresta seca, se espalhando pelo mundo inteiro como se fossem verdades, com muita gente acreditando e compartilhando, contribuindo para que elas se cristalizem, mesmo que não haja nenhum fato real por trás, mesmo que sejam histórias absurdas, mesmo que essas mentiras prejudiquem pessoas, grupos, povos, mesmo que elas sejam perversas e desumanas. Como disse Winston Churchill

Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.

Concluo então que mentiras não têm pernas curtas. Suas pernas são longas, muito longas.

Vemos isso atualmente de uma forma muito clara. A mundo enfrenta muitos problemas e talvez o maior deles seja a migração de 60 milhões de pessoas, gente que está fugindo de guerra, terror, opressão, fome e falta de perspectiva. E muitos desses refugiados estão tentando vir para a Europa, um continente que está dividido, com gente solidária de um lado, muita gente insegura e com medo no meio e com racistas e xenófobos do outro. E esses xenófobos, que são guiados por puro ódio e egoísmo, torcem fatos e ignoram números, mentem e transformam suas mentiras em “verdades” que se espalham rapidamente pelo mundo virtual, sendo aceitas e difundidas por muita gente numa cegueira sistemática de quem só quer ver o que lhe convém. Estranhamente, esses xenófobos se manifestam de toda parte do mundo, inclusive do Brasil, propagando suas mentiras sobre a situação na Europa, mesmo estando distantes, mesmo sem qualquer fundamento, sem qualquer nexo. Ainda assim essas mentiras são aceitas pela massa e disseminadas mais e mais, o que faz com que suas pernas fiquem cada vez mais longas.

Um bom exemplo é um vídeo que anda circulando na internet, que mostra refugiados na fronteira entre a Sérvia e a Hungria, refugiados irados supostamente por se tratar de ajuda da Cruz Vermelha, uma instituição cristã. O vídeo mostra um instante de protesto de refugiados que já estavam há horas ali, atrás de arames farpados, tratados como se fossem bichos, debaixo de chuva, entregues ao tempo e ao léu, sendo maltratados por policiais húngaros, que, em nome do governo daquele país, mostravam claramente aos refugiados que eles não são bem-vindos. Tudo o que os refugiados queriam era seguir viagem para países mais civilizados no oeste/norte europeu. O tempo todo eles protestavam, pedindo para passar e continuar sua viagem.

Quando a Cruz Vermelha chegou para distribuir pacotes com gêneros de primeira necessidade, os refugiados recusaram a ajuda, dizendo que não é isso que eles queriam, já que a única coisa que queriam era seguir seu caminho. A certo momento, eles gritavam „Não, não, não!“, que é o momento registrado no vídeo.

Apesar das declarações do autor do vídeo e da própria Cruz Vermelha, que deixaram claro que em momento algum houve recusa por se tratar de uma ajuda cristã, a mentira se espalhou, muita gente a compartilhou e os comentários xenófobos deixaram clara a ignorância da massa, que segue demagogos e mentirosos por não ter ela mesma qualquer interesse pela verdade.

Sim, é a massa que é o problema. Uma mentira não teria chance alguma se não fosse aceita por muita gente, que a passa então adiante, de uma forma estúpida, perversa, desumana.

Isso ocorre diariamente, em todos os setores, sempre com o mesmo objetivo: o de difamar alguém ou um grupo de pessoas, uma etnia, uma orientação sexual, uma religião… E muitas pessoas, monstros famintos que se alimentam de inverdades, batem palmas e acrescentam sua porção de mentira à mentira, tornando-a ainda maior.

Penso que todos nós, sem exceção, somos responsáveis pelo que propagamos. Ingenuidade, ignorância, ideologia, crenças ou mesmo medo e insegurança não bastam para nos isentar dessa responsabilidade. Todos nós, sem exceção, temos a obrigação de lidar com cuidado com as informações que recebemos e divulgamos, principalmente quando essas informações prejudicam pessoas, quando essas informações dividem seres humanos, quando essas informações causam sofrimento, injustiça, quando elas são torcidas e instrumentalizadas para propagar preconceitos, ódio, maldade, perversidade de gente estúpida e mesquinha.

Para mim é xenófobo quem compartilha mentiras xenófobas sem questioná-las, é racista quem propaga informações racistas, é homófobo quem divulga qualquer informação que discrimina homossexuais, é desumano quem dissemina falta de humanidade. A desculpa dessas pessoas não importa, já que cada um é SEMPRE responsável pelo que ele faz ou deixa de fazer, pelo que ele diz ou deixa de dizer e por tudo que ele apoia abertamente.

Uma perversidade ainda maior é quando essa gente mesquinha reivindica para si o direito básico de liberdade de expressão e opinião. Não, esse direito não se aplica à divulgação de mentiras, à manipulação de fatos e da realidade, ao discurso de ódio e ao desrespeito por outros seres humanos. Temos todos o direito de nos expressar, mas temos todos, ao mesmo tempo, a obrigação de fazê-lo com respeito pela dignidade humana, independente de quem quer que seja essa dignidade. Direitos humanos são universais, nunca podem ser relativizados, não dependem de raça, origem, religião ou de qualquer outra coisa e valem igualmente para qualquer ser humano, sem exceções.

O que cada um de nós pode fazer para “cortar as pernas” da mentira é ser crítico, é verificar uma informação antes de compartilhá-la e é agir com objetividade e sensatez ao invés de se deixar guiar por preconceitos, mentiras, egoísmo e medo. E termino com uma frase de Millôr Fernandes:

Jamais diga uma mentira que não possa provar.

mentira 2Link:

Porque é que os refugiados protestaram frente à Cruz Vermelha?

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

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