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A Festa e a Ilha da Injúria

Sobre o drama dos refugiados e o egoísmo de quem se nega a partilhar uma fatia do bolo

Ainda era bem cedo, antes do sol nascer, quando alguns caminhavam na praia e encontraram várias pessoas que haviam acabado de chegar. Eram os novos habitantes da Ilha da Injúria, uma ilha que servia de abrigo para muita gente que estava fugindo de outras ilhas e buscavam ali um refúgio temporário, que para muitos já tinha se tornado moradia permanente. Nessa ilha, todos esperavam pela mesma coisa: pela passagem de A Festa, que era o nome de um navio enorme, lindo e colorido, que passava diariamente à frente da Ilha da Injúria. Todos os dias, eles tinham a esperança de conseguir nadar até o navio, mas somente poucos conseguiam.

Sim, ainda era bem cedo, antes do sol nascer, quando alguns caminhavam na praia e encontraram várias pessoas que haviam acabado de chegar, que estavam ali, alguns em pé, exaustos e desesperados, outros deitados, mortos pela violência do mar.

Como A Festa não passava tão perto assim de nenhuma outra ilha, era ali que ficava a maioria dos refugiados, esperando e tentando chegar ao navio quando ele passava. Essas pessoas fugiam de terrorismo, de guerra, de escravidão, seca, fome e muitos outros sofrimentos e acreditavam que A Festa seria o lugar certo para elas, já que os festeiros no navio pareciam extremamente satisfeitos, pois festejavam o tempo todo alguma coisa – que foi o que deu origem ao nome do navio. Como os refugiados não viam o que acontecia nos porões da embarcação, eles acreditavam então que ali todo mundo era feliz. O que mais atraía os refugiados era a impressão de segurança e bem-estar que A Festa passava e por se saber que aquele navio tinha espaço suficiente para transportar ainda muito mais gente.

Muitos desses refugiados, talvez a maioria, vinham da Ilha do Siri, uma ilha que estava em guerra, como muitas outras, por causa de uma festa de ano novo comemorada no A Festa, quando festeiros bêbados e irresponsáveis soltaram foguetes em direção às ilhas para se divertirem, mas disparando com suas explosões conflitos que jamais cessariam. Já outros vinham de ilhas pobres em recursos, já que boa parte do que tinham havia sido levado para abastecer os festejos dentro do navio.

Havia também algumas ilhas, nas quais a situação não era tão grave, como a Ilha da Brasa, por exemplo, mas onde o povo também queria ir para A Festa para brincar e se divertir. Nessas ilhas, foi crescendo uma aversão aos refugiados da Ilha da Injúria, já que esses “estraga-prazeres” estavam dificultando também a entrada de novos festeiros no navio.

A Festa costumava permitir que alguns refugiados chegassem a bordo, aqueles que sabiam nadar bem ou simplesmente tinham sorte. Sim, A Festa precisava deles, já que os passageiros e também a tripulação andavam tão ocupados com os festejos que faltava gente para fazer os trabalhos pesados e sujos nos porões do navio. Assim, a tripulação permitia a entrada de alguns, mas não permitia que eles festejassem também, confinando-os em salas apertadas nos andares inferiores.

E assim a coisa foi rolando, durante anos, com a Ilha da Injúria recebendo cada vez mais gente, que tentava chegar até A Festa, muitos morrendo afogados, outros sendo sequestrados para servirem de escravos em outras ilhas, já outros simplesmente desapareciam, sem que ninguém soubesse seu paradeiro. Eram homens, mulheres, crianças, jovens e velhos e gente de tudo quanto é tipo que aguardava ali por sua chance de festejar com os passageiros do navio, sem saber eles que não eram realmente bem-vindos, já que os festeiros adoravam comer bolo e tinham medo de ter que ceder uma fatia para alguém, apesar de haver, na verdade, bolo em excesso, sendo que cada dia muito bolo era jogado fora ou dado aos porcos que eram criados nos porões da embarcação.

Como o número de pessoas foi aumentando muito na Ilha da Injúria, aumentou também o número de tentativas de embarque no navio e, com isso, subiu o número daqueles que morriam ao tentar. Morreram tantos que os festeiros não puderam mais ignorar o destino cruel daquelas pessoas. Eles olhavam para o mar e viam aquela multidão de cadáveres boiando na água. Alguns acordaram da embriaguez, se revoltaram e tentaram ajudar, mas isso não adiantou muito, pois, ao mesmo tempo, outros correram para o capitão, exigindo que fossem tomadas providências urgentes para evitar que “aquela gente” conseguisse entrar no navio, já que o bolo estava muito gostoso para dividir com quem quer que fosse e a festa muito divertida para permitir a entrada de gente malvestida, cansada, doente e triste. O capitão, que gostava de festejar e de agradar aos passageiros para se sentir especial, cedeu à pressão daqueles que queriam A Festa só para si e ordenou que não entrasse mais ninguém que viesse da Ilha da Injúria, mandando que a Guarda Festeira fizesse de tudo para mantê-los longe quando o navio passasse.

Como o número de refugiados aumentava constantemente na ilha, a Guarda Festeira não dava conta, o que fez com que o capitão tivesse a “genial” ideia de importar do Pacífico dois tubarões gigantescos, que nadavam em volta do navio, devorando qualquer um que tentasse se aproximar. Como os refugiados sofriam muito na Ilha da Injúria e já preferiam correr o risco de morrer a ficar por ali, eles enfrentaram também os tubarões. Como cada um dos tubarões só conseguia engolir um refugiado de cada vez, muitos conseguiam assim mesmo chegar ao navio.

Revoltados, os festeiros egoístas exigiram outras providências do capitão, que ordenou então que se construísse um muro ao longo de toda a balaustrada do navio. Como isso também não resolvia realmente o problema e muitos refugiados da Ilha da Injúria continuavam a entrar no navio de alguma forma, esse muro foi subindo, subindo, subindo… Sua altura foi aumentando, mas com isso também o peso e, no final, o muro ficou tão pesado que A Festa começou a afundar. Os festeiros, que continuavam a se divertir e a construir muro, só perceberam tarde demais que A Festa havia acabado e que agora sim, querendo ou não, estavam todos “no mesmo barco”. Hoje, a Ilha da Injúria está ainda mais cheia, pois tem que comportar, além dos refugiados, os festeiros que sobreviveram do navio que afundou por puro egoísmo.

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Sobre o autor

Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim, apaixonado por palavras, viciado em escrever, fazendo uso das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de sentir e a liberdade de pensar.

1 comentário

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  • Pois é! Aí fico me perguntando se além de receber o povo da ilha da injúria, dividir o bolo, não deveria o povo da Festa, ancorar o navio e parar de festejar, guardando e dividindo a sua comida. Pensei também que esse navio que consome muito combudtível, não está contribuindo para a exploração da ilha o Siri. Queria também questonar acerca de quem está na ilha do Siri expulsando o povo de lá. E se não está na hora do povo da Festa assumir o seu.papel humanitário, e parar de negociar com os Russos e Turcos a divisão da maior reserva de gás natural do mundo, que está na ilha do Siri e parar de financiar a guerra na ilha do Siri que já tem 4000000 milhões de pessoas retiradas de suas casas. Se não seria melhor o povo da Festa, parar de consumir, para que não seja necessário usarmos o gás da ilha do Siri e assim a gueera cessaria e o povo de ilha do Siri não precisaria deixar as suas casas e ir para festa. Talvez o povo da olha do Siri nem goste de bolo, só não queira morrer mesmo!